Criar para não enlouquecer
- Danielly Monteiro
- 28 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de jan.
Tanto eu quanto meu irmão somos da Geração Z. Eu nasci lá no comecinho dos anos 2000, já ele, em 2010. Diferente de mim, Eduardo não faz ideia do que é internet discada ou até ligação a cobrar, cresceu sem sequer brincar na rua, em meio ao aumento da conectividade e popularização dos dispositivos móveis. O curioso nesse contexto geracional entre nós dois é o passatempo que temos em comum: eu fotografo com câmera analógica; ele, com uma Cybershot. Eu coleciono vinis e ele ama a estética dos anos da minha adolescência — essa, de longe, é uma coincidência.
O fato é que a nossa geração está cada vez mais obcecada por revistas, câmeras de filme, vinis e flip phones. Não é só entre os Santa Ceciliers. Seja entre aqueles que cresceram na zona híbrida entre o digital e o analógico ou os que só conhecem a realidade de um mundo digitalmente globalizado, uma coisa é certa: cresce, cada vez mais, a procura por passatempos analógicos. Busca essa que lembra a febre do Bobbie Goods, livro de colorir que viralizou no Brasil no ano passado. Quem não queria ter um? Foi um sucesso de vendas e da descoberta de novos lazeres. Entretanto, diferente de uma microtendência, a nostalgia que vivemos hoje se âncora em um mesmo desejo reprimido: se desconectar das telas para viver a realidade.

Vivemos nas nuvens
Recentemente, uma das pautas da minha sessão de terapia às quintas foi a angústia pela sensação de não sentir o tempo passar, como se eu vivesse no piloto automático, um que funciona apenas para manter o trabalho em dia: deslocamento, tarefas, reuniões e metas operam automaticamente, acompanhados de uma pitada generosa de estresse. O trabalho passou a ser prioridade, e hidratação, exposição ao sol, alimentação ou exercícios em dia ficaram em segundo, terceiro, quarto e até quinto plano. Admito que mesmo na hora de dormir não há nada melhor do que o algoritmo do meu TikTok para me proporcionar boas risadas e me fazer desassociar da realidade. Bom demais.
Não me entenda mal, reconheço que a tecnologia otimizou processos e “democratizou” o acesso à informação. Hoje, basta um ou dois cliques e, em questão de segundos, dados, fotos e até documentos são facilmente acessados em nossos smartphones. Tudo acontece no celular. Maravilhoso, mas por pouco tempo.
Como é de se esperar em um sistema que sempre tende ao monopólio, são grandes os impactos do uso intensivo de dispositivos eletrônicos, excesso de anúncios, aumento do mercado global da IA (e outros frutos do capitalismo). Passamos tanto tempo online, ultrapassando 5h ou até 9h diárias de tela, que perdemos noção da realidade, deixamos de tomar decisões de forma consciente e perdemos rituais que costumam fortalecer os laços comunitários. Dessa forma, cresce, inevitavelmente, o número de jovens que enfrentam problemas emocionais e um profundo vazio existencial. A nossa realidade é outra: vivemos com a sensação de estarmos sempre atrasados, presos num ciclo de comparação constante e infelizes com o mundo offline. Esquecemos que usar sempre as mesmas roupas e o mesmo celular por anos é normal. Acreditamos em vídeos feitos por inteligência artificial. Canguru no aeroporto? Parece real. Por que não uma venda casada de streaming? Surfamos em mais uma microtendência, compramos coisas que não precisamos. Estamos hiper acelerados, mas o conceito de tempo e realidade continua o mesmo, ao contrário da nossa percepção.
Diferente do tempo que dita o mundo paralelo da internet, a massa do pão cresce em horas, a colheita vem em meses e a paisagem muda ao longo dos anos. O tempo passa devagar, assim como em Dias Perfeitos (2023), obra de Wim Wenders, odiada e aclamada na mesma medida. Para alguns, um filme muito quieto, de desenvolvimento lento e poucos diálogos. Para outros, um lembrete de que a vida existe na simplicidade da rotina.
Nele, acompanhamos a história de Hirayama, um homem modesto que trabalha limpando os banheiros públicos de Tóquio, profissão pouco valorizada pela sociedade japonesa. Dias Perfeitos é uma ode à vida ao difundir o papel do cotidiano em tempos onde tudo parece demais. Mesmo diante das adversidades que enfrenta no dia a dia, Hirayama lê, fotografa e vive cada segundo do presente e recorda às mentes ansiosas, numa conversa trivial com a sobrinha, que “hoje é hoje, e amanhã é amanhã”. Também conhecida como Mindfulness, a técnica para praticar a atenção plena originou-se no ocidente a partir de práticas meditativas orientais e visa a redução de ansiedade e estresse, em busca de uma maior clareza mental. O que é quase inviável em meio aos excessos de estímulos de um mundo digitalmente otimizado, onde é impossível se desconectar por completo. Nesse caso, se desligar-se do mundo online é impossível, como manter a sanidade mental?
Saudades do que a gente não viveu
No final do ano passado, dei tela azul por excesso de trabalho. Minha ocupação se tornou minha vida e não existia nada além disso. Após muita terapia, me dei conta que precisava cuidar de mim. Mesmo dias após meu último dia de expediente, eu ainda podia sentir uma grande descarga de adrenalina correr pelas minhas veias. Estava em burnout. Desde então, recuperar o mínimo de bem-estar mental e físico tem sido o meu foco. Até comecei a fazer yoga, acredita? Fiz de tudo: estabeleci rotina, exercícios, terapia e comecei a andar de bicicleta, tudo na esperança de recuperar a sanidade, mesmo sabendo que essa exaustão do capitalismo é inevitável e tende a nos alcançar repetidas vezes.
O que aconteceu comigo é mais comum do que se imagina, e é dentro desse mesmo cenário que cresce a demanda por pausas e experiências que não dependem do mundo dentro do celular. Trabalhamos e descansamos em frente às telas. Temos 1001 fotos e mal lembramos da metade. Pagamos mensalmente para ouvir músicas, mas não somos donos da mídia. Assistimos a filmes que logo desaparecem do catálogo. Respondemos mensagens de forma automática. Salvamos links que nunca acessamos e, pouco a pouco, deixamos de ter interesse genuíno pelas coisas.
E é nessa encruzilhada que a Geração Z adota hobbies analógicos, os passatempos que foram se perdendo e hoje vêm se popularizando cada dia mais. A volta do analógico é a retomada por decisões conscientes. Diferente do mundo online, essas experiências impõem limites: capturar 36 filmes por rolo, ouvir um álbum do começo ao fim ou assistir a um filme de forma contínua —momentos em que podemos aproveitar sem a ajuda de algoritmos.
Eu sei que, mesmo com os prazeres que o mundo lá fora oferece, passar tempo longe das telas pode parecer esquisito à primeira vista, especialmente para quem mal consegue fazer tarefas simples sem a companhia do celular. Isso acontece porque a hiper conectividade mudou a nossa forma de se relacionar com o tempo e hoje, qualquer sintoma de tédio, por menor que seja, é preenchido por telas — não à toa, Takashi, que lava banheiros junto a Hirayama, mal consegue deixar o celular de lado durante o expediente. É fato que a tecnologia resolve muita coisa, mas justamente quando nos afastamos desse ritmo frenético, longe da urgência e do desempenho é que somos capazes de descobrir novos prazeres.
Ao deixar de manipular o tempo, o tédio se torna uma bússola para novos sentidos, experiências e memórias, tal qual Hirayama, que aprecia e registra em sua câmera a beleza dos fechos de luz nas copas das árvores: um momento de contemplação, chamado, em japonês, de komorebi. Em um mundo de muitas conexões, é preciso viver ao invés de existir e, talvez, a saudade que compartilhamos de um tempo que já não existe mais não seja somente pelas revistas, pelos vinis ou flip phones, mas da presença, do toque, do som e de sentir o mundo sem pressa. Saudades de um lugar onde memórias são construídas de forma genuína e a vida existe para além do trabalho.
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Recentemente, estive muito pensativo sobre essa pauta. Conversei com diversos amigos sobre a necessidade de atividades mais analógicas e/ou de viver mais momentos sem a necessidade de estar conectado com a tecnologia de alguma forma.
Mais precisamente, a falta que eu estava sentindo de apenas ouvir meus próprios pensamentos, utilizar a criatividade para projetar ideias e soluções, sem ir de imediato perguntar no Google como posso fazer X coisa.
Como somos bombardeados de informação o tempo todo, temos a possibilidade de escolher o que queremos assistir e quando queremos, mas acabamos perdendo o 'tédio' — que, diga-se de passagem, faz muito bem para o ser humano.
Estou comemorando o fato de ter conseguido fazer coisas simples, como assistir a um…