Bem-vinda à carne
- Clarice Rodrigues
- há 1 dia
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1.
Quando eu era pequena, o carnaval nunca passou em branco para mim.
Minha mãe me levou para o Galo da Madrugada quando eu tinha seis meses de idade e, durante uns anos da infância, minha casa foi sede do bloco criado por ela, “Nize com a Vara” — ou "Nize na Vara" para os íntimos. Não só ela, mas uma boa parte da minha família vivia o carnaval com gosto. Os blocos da rua eram de familiares ou conhecidos e todos os dias eu conhecia a festa de uma forma diferente.

Podemos dizer que nasci do carnaval, porque o que unia minha mãe ao meu pai era a folia. Quando ela descobriu que estava grávida, seu primeiro pensamento foi “Meu deus, não vou poder curtir o carnaval de 2005…”. E ela curtiu. Sentada nas cadeiras, mas sempre presente em todos os lugares em que conseguiu estar. Tenho pra mim que, mesmo quando tentava fugir da farra, ela me perseguia com arrepios arrebatadores enquanto a orquestra de frevo tocava no começo da rua. Era o momento em que todo o bairro se unia para celebrar algo que eu não entendia, só conseguia sentir, porque nem saber sentir eu conseguia. Eu era levada pela maestria da folia e ver uma multidão unida pela catarse do frevo sempre me encantou. Ainda era uma criança quando ouvi pela primeira vez de uma amiga, em uma ligação pelo telefone fixo de casa, que o carnaval era uma festa rasa de pessoas rasas que vivem a euforia momentânea que a religião (dela) já proporciona todo dia. Isso foi, no mínimo, um choque.
Mesmo que eu entendesse o teor religioso que a capturava em um calabouço de amargura — que, por sinal, ela não tinha culpa alguma disso — ainda sim, não concebia a ideia de que o carnaval poderia ser visto como algo ruim. Afinal, como poderia? A mesma festa que faz minha avó sair de casa com um sorriso que quase nunca vejo no rosto, que faz minha tia se contorcer em seus passos mais frenéticos de frevo e que é a ânsia da minha mãe por um ano inteiro… como ela poderia ser rasa? Eu seria rasa por gostar daquilo tudo?
“Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz.” Romanos 8:5-1 conta que devemos cuidar da nossa carne, do nosso corpo, nos blindar da indecência porque nós que estamos em jogo. A festa carnal, então, não nos permitiria atingir a profundidade do celestial.
Aquela foi a primeira vez que abri os olhos para a quantidade de pessoas que são aprisionadas ao nosso redor e passam despercebidas com tanta facilidade. Desde então, o carnaval não é mais o mesmo para mim. Os olhos, antes embaçados e encantados pela magia das ruas, agora também enxergam o desdém do moralismo que julga as festas carnavalescas como profanas, selvagens e frívolas. Visto como um período de perigos, o carnaval carrega o estigma de uma semana que simboliza a despedida da civilidade e a inauguração da desordem — herança de um tempo em que era proibido comer carne. Antes do início do jejum, portanto, as pessoas se permitiam saciar seus apetites em um evento que acolhia o excesso, o corpo e a libertinagem.
Imagina viver por essa ótica sufocante? O pensamento de que a marginalização e o julgamento severo nos cerca de tantos lados parece quase tão claustrofóbico quanto a frente da Prefeitura de Olinda no sábado de carnaval. Para além de um impacto religioso, era um sintoma da crucificação do sonhar e festejar, então como conseguiríamos respirar se querem nos tirar o ar? Como poderíamos seguir com o ano se ele só começa depois que o carnaval terminar?
Aquela única frase, quando eu tinha por volta dos 10 anos, em uma ligação, desencadeou uma sequência de reflexões que carrego comigo em todos os dias de troça. Éramos duas crianças criadas em lares totalmente diferentes, experienciando um choque que se passava como singular, mas era tão comum, e que, infelizmente, ainda reflete um pensamento ortodoxo que perdura nos dias assombrados que vivemos.
Quando pesquiso sobre o carnaval e descubro seus primórdios vindo da colonização europeia e do olhar pesado do catolicismo sobre a farra, percebo o quanto o simbolismo afro-indígena está presente na construção, na ideia de brasilidade e na transformação da festa em prol do desejo de saborear calor humano. Antes de começar o jejum, as pessoas aproveitavam para saciar seus apetites. A festa que conhecemos chegou ao Brasil atravessada por heranças antigas e é intitulada como Entrudo, que já carregava em Portugal a fama de ser turbulenta. Era uma semana de perigos, de despedida da dita civilidade e do abraço à “selvageria", que acontecia antes do início da quaresma, um tempo em que era proibido comer carne.
Moacyr Flores faz paralelos com Roma e seu festival dedicado a Saturno, as Saturnais, em que, durante esses dias, as regras morais eram afrouxadas e a libertinagem tomava conta das correntes religiosas. O entrudo português bebe dessa fonte e chega aqui de forma violenta, disfarçada de “folia”, enquanto os escravizados jogavam uns nos outros comida como ovos e farinha, por exemplo. No lado burguês, as famílias brancas despejavam baldes de água suja em quem passava, em uma performance de “quebra consentida” da rigidez patriarcal, mas que mantinha as hierarquias intactas e gerava cada mais maus olhares.
Em Do entrudo ao carnaval, Moacyr descreve um carnaval irreconhecível para mim; quando ressignificamos o que veio nos navios e tornamos tão nosso que agora é ímpar — ninguém afora pode sequer sonhar em reproduzir, pois é certo de falhar. E entender a pluralidade por trás da construção de um carnaval livre das violências europeias e escravocratas me traz um sabor ainda mais gostoso do que vale o carnaval.
Antes de chegar ao Brasil, o carnaval não tinha gosto de vida. Não enxergo semelhança entre o primeiro momento do entrudo com os carnavais pernambucanos. Aqui vamos além do que trouxeram e enxergamos o que há de mais belo na comunidade e no movimento de um povo, a partir de pulsações que contam a nossa história, cantada por nós mesmos, de uma forma tão única e tão intrínseca. É nos batuques que a gente se encontra, com os tambores e orquestras nas ruas que temos o povo para chamar de nosso com a gente. Negar a manifestação cultural que para o Brasil e só permite a continuidade do ano pós festa é, no mínimo, uma desonra.
A festa da carne nasce da rua, da negritude e dos ritualismos de uma despedida à realidade prisioneira do cotidiano, que se manifesta nos ritmos históricos que percorrem o corpo suado. Meu corpo não é mais só meu e agora ele pertence às ruas, e todo o suor que está em mim também está no outro; estamos encharcados no meio das ruas e não queremos nos secar tão cedo. Olho pros lados e os desconhecidos são como eu e eu como eles, temos água na boca de cultura e paixão pela memória viva de um carnaval que transformamos. E então, me agarro no sentimento de orgulho para falar de nós, que fazemos as cidades vibrarem todo ano, vira nosso e vira outro.
Logo, ao ouvir “meu coração já não tá mais cabendo no peito” em Maravilhosa, compreendo a letra de Marina como se eu a escrevera. Ela traduz com magnetismo o frenesi de estar na ponta do pé, para além de um corpo, fazendo folia e reverenciando com tanta paixão os sons das ruas. É quase como um delírio coletivo, tal qual um sinal estrondoso em um sonho, que te arrebata quando acorda e altera sua forma de se ver e ver o mundo. Quando desejamos estar cara a cara com a folia e só nos resta sonhar com saudosismo, com a pele na pele e na falta de fôlego quando gritamos à liberdade, são em momentos como esses que sentimos emoções desconectadas da matéria e intrínsecas no onírico. Esse véu que divide o mundo dos sonhos e o real parece desaparecer nos blocos. O inconsciente soa coletivo: o que é meu passa a pertencer ao outro. A individualidade vira mito e a fantasia se transforma em crença quando o êxtase da natureza humana e a necessidade de sonhar se encontram nos batuques e nos passos.
Criaturas da Mente, de Marcelo Gomes e Sidarta Ribeiro, revela como a psicodelia pode ser o sinal mais profundo e quase sagrado do poder que habita em nós. Então me pergunto se o carnaval deixa mesmo de ser real ou se é, na verdade, a materialização de um desejo insaciável de tanta gente aprisionada que finalmente se liberta nas ruas delirantes de um imaginário coletivo. O que acontece quando paramos de sonhar? Para Pernambuco, essa possibilidade sequer existe. Não podemos e muito menos queremos viver sem ouvir quem tanto nos chama.
A sensação de acordar suado na cama, completamente atordoado e colocando peças trêmulas, depois de um sonho vívido e de se perder na desordem dos sons da percussão pernambucana, talvez seja mais próxima do que eu imaginava. É quase uma alucinação, mas tão real que se sente na palma das mãos e nos conecta a mais gente — e a mais coisas — do que conseguimos alcançar.
Assim, tão fácil, me vejo de volta ouvindo o Hino do Elefante nos Quatro Cantos, e quando fecho meus olhos posso sentir a quentura que vem de dentro e de fora. É lindo ver centenas de pessoas tão ímpares em uma multidão que nos transforma em um único ser latente que canta, dança, pula, sua, ri, chora, beija, transa, em uníssono.
Abençoado seja o carnaval.
2.
Toda manhã de carnaval acordo cedo e me deparo com a ameaça de uma chuva que poderia morgar a festa. Acendo minha vela e peço por sol. Essa fé, que não é só minha, se manifesta em cada esquina, seja com os banhos de proteção antes da folia, com as guias em volta dos pescoços nas multidões ou naquele momento que agradecemos a quem cuida de nós por tanta felicidade. Mesmo que o carnaval seja marcado pelo escárnio de certas crenças, para mim é óbvio que a fé segue movendo nosso espírito pelas troças. Talvez eu pense demais no divino quando ouço o hino de Pernambuco… nesses momentos, enquanto fecho meus olhos e sinto o calor no rosto, tudo ao som de puro frevo e grito pernambucano, é como se a eletricidade se alastrasse pelo meu corpo, e eu só penso no paraíso, porque me parece o mais próximo de lá que qualquer pessoa pode chegar. Me sinto uma foliã completa.
Pensamentos que discriminam não se fazem nesta festa, que é palco de comemoração de rituais da rua e da fé. É nesse delírio que prestigiamos a comoção que nos une à ancestralidade presente na madrugada, com o Homem da Meia-Noite, o Calunga ou no Cariri, por exemplo, representações de resistências nordestinas afro-brasileira. “Deu meia-noite na noite, são doze em ponto, a lua cheia clareia os quatro cantos”.
Dá pra imaginar ser de Recife e nunca ter ido ao Homem da Meia-Noite? Aí é que tá: eu nunca fui. É aqui que me sinto uma pernambucana incompleta, que só vive das histórias e se deslumbra com a feitiçaria que envolve o Homem e o Cariri. Parece que só de ouvir as orquestras noturnas posso abocanhar o fervor daquelas ruas estreitas, como o vampiro gigante das pernas de pau faz.
Deve ser lindo receber o carnaval ao lado dele, com o coração pulsando tão forte que o sangue bombeia e quase se derrama por Olinda. São simbolismos e rituais de aguar os olhos e os beiços. Ano que vem quero estar ao lado do Homem e subir e descer ladeira até o Cariri. Quero fazer parte da multidão que o vampiro chama de sua e representar o pilar da folia ao seu lado. É realmente de não segurar o coração no peito quando se trata da emoção carnavalesca e fica impossível ignorar a força palpável de uma herança que escolhe acalentar o prazer e não silenciá-lo, em um encontro emocionante da liberdade e do amor.
É inevitável, sempre que me pego pensando no carnaval, os olhos encherem d'água automaticamente. É incontrolável e é o que me leva a ansiar como minha mãe ansiava. Me transporto para seu ventre quando fomos para o primeiro carnaval juntas ao som de Madeira do Rosarinho, e sinto seu fervor, sua paixão. Me vejo com seis meses na casa de Jaciene, na Cabanga, pertinho do Galo, enquanto a família se reúne, me paparica e a atenção entre o rei do carnaval e eu fica dividida. Juro por tudo, consigo ouvir o povo clamar “Eu quero frevo”.

Em um lugar que nunca reduziu o festim do carnaval à condenação, o que me inunda é o tremor de pertencer ao que é livre, colorido e sagrado. Como Clécio diz em Tatuagem e eu contemplo imediatamente à luz incandescente do carnaval, é a práxis do improvável junto a eficácia da desordem, e é para lá que eu quero ir.
Assim, relembro do primeiro carnaval que vivi em Olinda, ao lado da minha mãe, do meu padrasto e da minha amiga do telefone fixo, e me debulho em lágrimas por um sentimento que transborda e não demanda explicação. Posso sentir o mesmo olhar de êxtase que minha amiga me lançou quando cantamos o Hino de Pernambuco nas ladeiras pela primeira vez e me sinto viva, alimentada e cobiçando que o carnaval nunca cesse. Que a rua sempre clame pelo fervor de viver a carne.
O que vivo em dias nas ruas me pertence, assim como pertenço a ela. O que vivi no carnaval passado em ladeiras, vielas e avenidas é a releitura de comportamentos europeus que se revitalizam a partir do territorialismo e do consumo da vida, pois é o que nos entorpece em cadeia. Quando arranca-se a martirização do evento dos carnívoros, de quem consome sangue como se fosse vida e de quem busca viver em si pelo período carnavalesco, vemos o mais nu do ser humano em festa. Me vejo como vim ao mundo, agarrada com pessoas desconhecidas e suadas que compartilham a liberdade como se fosse a primeira vez.
Quando Marina Sena canta “não vou ficar nesse verão sem seu carnaval” ou Ivete traz “o seu amor é canibal, meu coração é agora todo do carnaval”, são proclamadas as formas livres e avassaladoras de amar alguém assim como se ama as ruas. Me recuso a viver mais um verão com a tormenta do frio, pois eu nasci para tremer de desejo e ceder a ele sem medo, então eu me permito canibalizar quem amo nas ladeiras e ser possuída pela forma mais pura de vida. Quem tem meu coração na ponta da língua sabe que ele bate conforme os tambores, e ele é audacioso, sobretudo carrega uma bravura reconhecível das troças e se alimenta das vísceras de ser livre para desfrutar sem impedimentos.
É o movimento de ímpeto que me atropela e se torna meu maior almejo durante os dias que antecedem e sucedem as troças, que me leva a chorar de amores pelo meu estado, por quem compartilha do meu amor. Tento não me apegar a memórias, mas sinto que já me passaram tantas que vivo o meu carnaval como vivo o da família. Pulo nas ladeiras, no chão do Recife Antigo e nas ruas de Areias como se pulasse pelo Brasil inteiro, para ele sentir meu calor, que transcende minha alma e me conecta com algo divino que também arde com o povo. É o batuque que me faz querer que fevereiro dure o ano inteiro.
A música feita por gente e para gente, em sons que ecoam e não se dissipam com facilidade, pois carregam a alma da festa em cada atabaque do maracatu, em cada caracaxá dos caboclinhos e nos trompetes das orquestras de frevo. O espírito inspira no corpo presente uma teatralidade de invejar, com a corporeidade fascinante de cada passista que dança em alforria, na força de cada bonequeiro que sustenta um boneco nos ombros assim como sustenta o mundo ou os guias mirins para nos conduzir pelos caminhos. Ao falar de carnaval, reitero, falamos de povo: se a turma não saísse não havia carnaval.
É a festa carnal parida pela mãe natureza e criada pela gente, por quem vive ardentemente e respira festa. Sem essa gente não há folia, a qual nos apetece com tanta glória e esplendor.
Por isso ela é a musa de tantos músicos, tantos artistas a adoram, e não consigo ver como não adorar. Assim que Geraldo Azevedo usa seu dom para saudar e renovar nossos votos ao carnaval com Quando Fevereiro Chegar, como não ir além da matéria e cair no sonho? Mainha sempre esperou o ano todo pela única época em que podia, enfim, carnavalizar. Quando esse momento dava sinal de chegar, a agitação guardada dentro dela finalmente encontrava saída: a casa ganhava cor, a decoração ficava extravagante — talvez até mais do que no Natal — e os dias passavam a ter trilha sonora, do frevo ao axé, do samba de enredo às marchinhas.
Estou me guardando pra quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes, consegue me atravessar novamente com a preparação da população de Toritama para pertencer ao fervor do carnaval; o choque vem — mas vem acompanhado de compreensão. É um sonho, a esperança de ver a praia, de ouvir as marchinhas, de entrar na sintonia desse alívio raro, da única semana do ano que parece nos pertencer, que move a gente em um cotidiano difícil. Sempre me emociono demais com o final do filme. Choro tanto pensando nos carnavalescos quanto no próprio carnaval.
Então, quando a quarta-feira de cinzas chega, já fico com o amargor na boca de “quero mais” e soa quase como uma súplica para a euforia não ir embora com o vento. Às vezes, até quando estou nas noites de carnaval já sinto esse gosto, e nem acabou, sabe?
Minha mãe me passou lembranças vivas que sinto que se tornaram minhas ao longo de cada dia que festejei. Com elas, vem a sensação arrasadora de não ser onipresente não só por Pernambuco, mas que se alastra até os territórios baianos e cariocas também. É uma espécie de medo de ficar de fora da farra, que corre pelas veias e foi passado por gerações, afinal, como não querer viver em fevereiro para sempre?
Em novembro de 2025, a minha amiga do telefone fixo me pergunta como será o nosso carnaval de 2026, porque desde o vislumbre da liberdade não há mais a possibilidade de não ser livre. A ligação me acordou para viver uma fantasia eterna de contemplar o que eu nunca seria capaz de me negar, e que, graças ao divino, ela pode experienciar na primeira oportunidade que a arrastei para Olinda comigo. Percebe que é holístico apreciar a carnavalidade do outro? No momento que o sol bate quente em um rosto feliz de um folião, pode deixar queimar; a pele é o que menos arde no pernambucano no início do ano.
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