Cidades pequenas vistas de dentro: uma conversa com Infinito Latente
- Maria Luiza Albuquerque
- 20 de jan.
- 7 min de leitura
Da intersecção entre as marchinhas de carnaval autorais da cidade natal para os ruídos, semáforos e vai e vem subterrâneo dos metrôs da grande São Paulo, a banda Infinito Latente encontra um estado de pensamento que só se alcança nos intervalos: entre mensagens, no estalo da agulha antes do disco tocar, nas entrelinhas dos versos de um poema. Ao mesmo tempo em que parece nada, a ausência faz falta.
A Guilhotina pôde ouvir, com exclusividade, o disco estreante e primogênito da banda, intitulado Sem Início Nem Fim. Chama atenção a observância do sentimento espiral que a banda traz, desde os títulos até as ordens que se repetem e que sobem e descem, como um ensaio ou um fluxo de pensamento.

Formada por Maira Bastos (voz), João Dussam (voz e violão), Igor Sganzerla (teclas) e Pedro Sardenha (baixo), a Infinito Latente constrói um trabalho que se move entre o íntimo e o suspenso, como quem atravessa uma paisagem conhecida sob outra luz. O que poderia resultar em um disco intimista no sentido mais literal se expande por meio da produção de Gabriel Olivieri, que introduz texturas e camadas que afastam o álbum de qualquer ideal de pureza acústica e o aproximam de uma pegada mais indie e contemporânea.
Talvez seja esse o primeiro gesto do disco — não existe oposição clara entre o orgânico e o tecnológico; essas duas coisas coexistem, como convivem na vida cotidiana, tão intrínsecas que passam despercebidas.
Gravado entre a capital de São Paulo e o interior, no Vale do Paraíba, o projeto absorve algo do deslocamento. Não no sentido turístico da paisagem, mas no ritmo. Há músicas que parecem caminhar sem pressa, como quem atravessa uma cidade pequena sem destino certo. Amanhãs Azuis, faixa de abertura, se organiza mais como atmosfera do que como estrutura tradicional, soando como início de dia.
Sem Início Nem Fim entra em cena como um pensamento que já estava ali antes. Talvez seja por isso que o álbum soe menos como estreia e mais como permanência. Não há urgência em se apresentar, nem esforço em se explicar. O disco observa. E, ao observar, deixa que o tempo faça o que sempre fez: passar sem pedir licença.
As referências astronômicas começam ainda antes. A banda nasceu do encontro entre Maira e João, que se conheceram a partir de um projeto anterior, o Cometas Salutares. Antes de qualquer planejamento de carreira, nasceu a troca de músicas mostradas sem destino definido e de inquietações necessárias. Maira é de Taubaté e João, de Aparecida do Norte. Eles compartilham talentos e percepções de uma vida interiorana paulista, onde a música aparece não tanto como promessa, mas como hábito.
Em conversa com a revista, ambos celebram os inícios, revelam referências e devaneiam sobre as surpresas de criar o primeiro álbum.
[João]: Sempre tive uma ligação com música. Não tenho família de músicos, mas minha mãe ama samba, ama música brasileira — sempre fui criado assim, escutando bastante. Em algum momento, comecei a tocar violão de forma despretensiosa, entre amigos, e a compor. Foi assim que tudo começou.
Dussam comenta que a região onde a banda se formou guarda uma tradição forte de composição autoral, inclusive nas marchinhas de carnaval. A informação, que poderia soar como curiosidade biográfica, ajuda a entender algo essencial do disco: as canções parecem escritas por quem cresceu ouvindo música como linguagem cotidiana, e não como produto. O álbum não soa folclórico, tampouco nostálgico, mas carrega a autoria tal qual um gesto quase inevitável.
[João]: O Vale do Paraíba tem uma cultura muito forte de congadas, moçambiques e maracatus. As festas populares são uma referência grande pra gente. Em São Luís do Paraitinga, por exemplo, a cultura carnavalesca é muito forte. O carnaval autoral começou lá pelos anos oitenta, e todas as músicas tocadas são compostas por artistas locais.
Parte do repertório nasce já sob a ideia do Infinito Latente; outra parte vem de versões anteriores, reapresentadas por novos olhares, numa mistura das experiências do interior e a proximidade com os versos para as referências do que viam. A ideia sempre foi fazer um projeto circular, em que pudessem se divertir, explorar as temáticas e os sons.
“A gente fala sobre natureza,
fala sobre amor, fala
sobre vários temas."
[Maira]: Não sei se o João concorda comigo, mas a gente é meio dramático [ri]. Essa dramaticidade acabou indo pra música.
Além das inéditas, algumas canções precisaram ser repaginadas para se encaixar nas novas roupagens do projeto, como explica Maira:
“Algumas músicas foram feitas direto para esse projeto, mas outras foram repaginadas. É o caso de Quantas Vidas, por exemplo, é uma composição do João com o Léo, amigo nosso. Tentamos colocá-la na Cometas, mas não dava liga. Quando trouxemos pra Infinito Latente, com uma versão mais rock e indie, ela fluiu.”
Sobre outra faixa, ela continua:
“Nosso Quadro também mudou. A gente cantava em samba na Cometas. Quando trouxemos pra Infinito Latente, mudamos ritmo e forma de cantar. Antes, no final, quando chegava no ‘eu amo você’, a melodia pousava. Agora, trouxemos essa coisa mais gritada, quase shoegaze. Mudamos um pouquinho, colocando muito a nossa cara e o que a gente gosta de falar.”
Se o disco parece caminhar sem pressa, é porque carrega muitas escutas acumuladas. As referências da banda não são apenas citação direta nem exercício de estilo, mas algo que atravessa de forma natural — um jeito de escrever, de sustentar a intensidade, de permitir que a canção seja sentimental ou não. Há uma linhagem clara da canção brasileira que entende o drama como força expressiva, mas também com uma escuta atenta ao que se produz hoje, nos deslocamentos entre cidade, internet e afeto.
[João]: O arcabouço da MPB dos anos setenta é muito forte na nossa vivência e na nossa ideia de fazer canções. As referências regionais também influenciam. Esse lance de fazer as próprias músicas, cantar pela gente, falar da gente.
Djavan, Gonzaguinha e Ângela Ro Ro surgem como presenças formadoras, mais pela intensidade do que pela forma. A eles se somam artistas da cena contemporânea brasileira, como Jadsa, Bruno Berle, Sofia Chablau e Louco, além de influências internacionais como Cuco e Mac DeMarco, que ajudam a construir pontes entre indie, latinidade e canção.
“A gente mora em São Paulo e vive essa cidade”, diz João. “Tentamos assimilar essa estética mais indie, meio rock. Isso também faz parte.” Ele ressalta ainda a importância da voz como território: “a gente faz questão de cantar com o nosso sotaque do interior. Isso também é geografia. É parte do som.”

Ao conversarmos sobre a escassez de oportunidades para artistas em cidades interioranas e o movimento particular da região de onde vêm, Maira e João reconhecem os privilégios e as contradições de terem crescido em um ambiente culturalmente ativo, ainda que atravessado por resistências. Manter festas populares, carnavais e expressões artísticas no interior exige enfrentamento político, embates com poderes locais e uma persistência que raramente aparece para quem vê de fora.
[Maira]: A gente teve o privilégio de estar perto da classe artística. Ao mesmo tempo, é uma cidade com um pensamento mais fechado. A própria classe artística sofre pra manter o carnaval e as festividades populares. Existe resistência. Isso acontece em muitos lugares, principalmente no interior de São Paulo.
O interior aparece, então, como espaço ambíguo: fértil e restritivo, acolhedor e conservador. Um lugar onde a arte nasce com naturalidade, mas precisa lutar constantemente para continuar existindo. A banda herda na postura: na ideia de autoria como resistência, de criação como insistência cotidiana.
O nome da banda e do disco não surgem como conceito pensado a posteriori, pois é uma consequência natural do próprio processo criativo. Infinito Latente nasce de um verso, quase como quem escuta algo sem perceber imediatamente a importância do que ouviu. A expressão aparece em uma composição de Maira, apresentada para João ainda no começo dos projetos, quando as músicas circulavam sem ideia definida, sem destino claro.
A canção acabou permeando por ali, mas carregava em si dois versos que mais tarde se tornariam fundacionais: “infinito latente” e “sem início nem fim”. Foi João quem primeiro sugeriu que aquelas palavras poderiam nomear a banda e, depois, o álbum. Maira diz: “Eu aceitei meio assim, com modéstia [ri]. Mas tudo foi caminhando pra isso. […] As músicas falam sobre coisas infindáveis, sobre o universo, sobre o céu.”
A escolha da ordem das faixas, o clima etéreo buscado na produção e a própria sensação de circularidade do álbum reforçaram esse mote. O infinito não é grandiloquência e sim um estado latente: algo que pulsa sem se impor.
Em Aqui Dentro, a banda formula uma das frases mais diretas e, ao mesmo tempo, mais abertas do disco: “tudo é questão de se achar”. A canção não propõe um caminho claro, tampouco oferece resolução. Ela apenas reconhece a busca, e talvez seja exatamente isso que a torna central dentro do álbum. Em um trabalho que evita começos e fins definidos, falar sobre se encontrar não significa chegar a um ponto fixo, mas aceitar o movimento.
A pergunta que atravessa essa faixa — e, de certa forma, todo o disco — não é “quem somos?”, mas “como estamos agora?”. Encontrar-se, aqui, parece menos um estado permanente e mais um acordo temporário entre referências, desejos, escutas e afetos. Um processo que muda conforme o tempo, o contexto e o próprio corpo.
[Maira]: Acho que é uma busca constante. Talvez a gente nunca se ache exatamente, mas procura. E quando percebe que está circulando, que as pessoas estão ouvindo, isso já é uma forma de se achar. No nosso caso, pela música. A gente vai se encontrando dentro dessa estética que está sendo feita agora, misturando tradição, referências, essa coisa tropicalista de misturar tudo. É muito do momento. Daqui a pouco, pode ser outra coisa.
A imagem do “motivo bonito pra voar”, que surge na canção Motivos Bonitos, funciona quase igual um manifesto íntimo do disco. Não se trata de ambição no sentido clássico, nem de grandes conquistas futuras, dos “carretéis de sensações”. O voo é mais baixo, mais próximo do chão. No mundo de Sem Início Nem Fim, voar não é escapar da realidade, mas atravessá-la com algum tipo de delicadeza. É reconhecer que o simples ato de transformar vivência em música já pode ser um motivo suficiente.
[João]: Talvez seja o fato de ter motivos pra compor e colocar as músicas no mundo. A gente já compôs muitas vezes sem essa possibilidade. Agora, ter as primeiras oportunidades de lançar, de mostrar, é um motivo bonito. Mas isso é muito particular. Tem a ver com se sentir bem, se descobrir, encontrar razões pra viver e atravessar as coisas.
Não há conclusão evidente. O disco não se encerra, porque continua. Como os sentimentos que descreve, ele não obedece uma ordem exata, não começa quando inicia nem termina quando acaba.
Sem Início Nem Fim não pede atenção imediata, tampouco promete redenção. Ele oferece companhia — não se impõe, mas permanece; não resolve, mas acompanha. Há algo de profundamente humano nessa recusa ao clímax, nessa escolha pelo intervalo, pelo tempo estendido, pela escuta que acontece enquanto a vida segue.
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