LEOA, o que arde entre o original e o tropical
- Clarice Rodrigues
- há 3 dias
- 10 min de leitura
Um encontro consigo mesma em múltiplas facetas, com um olhar íntimo a sua voz, ao seu cabelo, sua regionalidade e sobretudo sua identidade: LEOA nasce original, diversa e feroz como uma felina. Em seu debut solo com Original Malokera, a cantora traz um álbum carregado de uma essência plural, que sonora e esteticamente transmite tropicalismo em seu trânsito por linguagens. Através de elementos característicos desde sua carreira na banda Luísa e os Alquimistas, partimos em uma revisitação orgulhosa às virtudes do Nordeste.

[LEOA]: Quando eu falo da minha cidade, do meu estado, isso também aparece, porque são vivências minhas, pessoais, mas que acabam gerando muita identificação nas pessoas. E eu acho que é isso: são histórias individuais que se tornam coletivas. Gera identificação, com certeza.
Ao se reconhecer como LEOA em um processo orgânico de compreensão sobre si mesma, a potiguar Luísa Nascim passa a experimentar a musicalidade agora como artista solo. Espontânea, ela mostra como seu individualismo se conecta diretamente ao artístico, e isso se reflete nas composições que, mesmo ambiciosas em explorar novos territórios sonoros, seguem guiadas por uma chama natural entorpecente, quase solar, como um verão latino que se estende sem pressa ao longo de suas músicas.
A mescla de idiomas e ritmos já era uma marca presente desde Luísa e Os Alquimistas, banda da qual fez parte até 2024, mas ganha uma nova e singular roupagem neste disco solo, em que a cantora fortalece a pegada potiguar ao incorporar com mais consciência o espanhol e o francês. Em Original Malokera, ela converge linguagens e ritmos latinos em ferramentas de sensualidade, sem abandonar outros flertes estéticos que atravessam o feminino e até o punk. Esse dualismo também aparece nas letras, que transitam entre canções que carregam romances, momentos mais introspectivos e confiantes e, claro, transbordam orgulho do Nordeste, em especial do Rio Grande do Norte.
Cada aspecto da representação de LEOA se manifesta em sua música em um ritmo leve e gostoso que convida a respirar a brisa do mar e se deixar conduzir pelos acordes que costuram o álbum. Ainda que já conheça os palcos sob outro nome, Luísa retorna a si com o desejo de explorar mais profundamente suas próprias facetas.
O disco constrói um diálogo fluido entre Brasil e o mundo ao unir cumbia, R&B, brega funk, reggae e forró de maneira intuitiva e coerente. Com faixas que exploram territórios rítmicos distintos e alucinantes, LEOA ousa sem perder o eixo, seduz com a liberdade de fluir entre cenários que vão do romance e dengo de Acesa à potência e exuberância de Malokera, sempre autêntica.
Em entrevista para a Guilhotina, a artista compartilha os detalhes por trás desse novo lançamento, no qual ela planeja revisitar faixas do disco e encontrá-las no verão fervente de 2026.
[LEOA]: Eu queria realmente me debruçar sobre isso de forma mais consciente. E, ao mesmo tempo, eu acho muito legal quebrar esses estereótipos do que é ser uma artista da música no Nordeste. Por mais que eu goste de cantar músicas que têm mais a ver com a cultura popular — e isso também está presente no disco —, eu acho muito legal essa coisa de ser uma nordestina que canta em espanhol, que canta em outros idiomas.
O álbum conta com colaborações majoritariamente nordestinas que reforçam um orgulho regional extravasado em cada faixa. A parceria com Potyguara Bardo e Janvita em 084 narra o Rio Grande do Norte pelas lentes de quem nasceu e cresceu na cidade do sol e toca até em quem não compartilha dessa vivência. 084 traz o culturalismo presente no álbum e em LEOA como forma de reafirmação da força potiguar de modo ímpar, e ao unir reflexos diferentes sobre o mesmo lugar, a cantora dilacera as imposições sobre o Nordeste e a forma regional de fazer música. Cada faixa leva o ouvinte a sentir paixão pelas praias, pelo calor e pela naturalidade que Luísa tanto reivindica como artista. Esse orgulho não só é sua maneira de resistir às imposições sudestinas, mas de criar a partir do amor que sente por ser de onde é. Assim, após quase um ano do lançamento de Original Malokera, LEOA quer ampliar o universo do seu disco em remixes que unam a aparelhagem de rock doido, o funkhall, forró e a música contemporânea das casas de show com DJS e produtores que contemplem as faixas por suas versões.
[LEOA]: Eu gosto muito desse lance de pegar um som que já é massa e trazer uma nova roupagem e às vezes ficar até melhor ou conseguir trabalhar da melhor forma essa discografia, porque às vezes a releitura tem esse papel de fazer essa manutenção. Também de fazer com que as pessoas se conectem. Às vezes, se a pessoa não se conectar com a música sendo um R&B, de repente, num piseiro, pode ser que ela se conecte, né?
A ânsia de explorar novos territórios a partir de sua voz se estampa em LEOA, que enxerga o retorno ao disco com novos formatos como uma forma de dar atenção a faixas que podem ser consumidas de diferentes jeitos. Então, quando falamos de uma tropicalidade frenética e contemporânea, a coletânea de remixes se apresenta como um caldeirão de sensações vividas em um verão intenso e embriagante de ritmos e idiomas. A sonoridade e a influência latina, fortes em seu trabalho, retornam em suas novas produções.
[LEOA]: A gente que é do Nordeste sabe o quanto é forte a presença da música latina e do Caribe dentro da música nordestina. Acredito que o próprio brega bebe muito da bachata. Só acho que, muitas vezes, a gente não percebe essas influências, essas semelhanças também, entre a música do Nordeste e a música internacional, latina, caribenha e tantas outras.
A maneira que a artista flerta em outras línguas em suas canções incita, para além de um charme, a sensação de poder quebrar fronteiras e conquistar quem escuta com destreza. Ainda que venha a se desvencilhar de imposições, extrapola ao mostrar a amplitude da música feita na região. Afinal, por que não queimar caixinhas que limitam sua arte e acender novos horizontes como mulher na cena musical nordestina?
A gente é cultura, a gente é saber, a gente é isso também, né? Por que não? Por que uma mulher do Nordeste não pode cantar em francês, não pode cantar em inglês, não pode misturar as coisas assim? Então, eu acho que isso faz parte da minha identidade mesmo como compositora, mas, ao mesmo tempo, é uma postura de dizer: “olha, a gente é muito mais complexo do que vocês, vocês do Sudeste ou toda essa galera que estereotipa muito essa coisa do regionalismo."
Dessa forma, Original Malokera traz uma cantora que identifica suas expressões artísticas tal qual uma janela para espiarmos quem está por trás de tamanha potência, como um manifesto identitário que LEOA confessa ter sido natural de reconexão com sua ancestralidade, em um processo que vem de dentro para fora e se traduz em arte latente e caliente.
[LEOA]: Eu acho que a originalidade tem muito a ver com isso: você conseguir misturar tudo isso, trazer para si e, quando vai pra fora, já sair de outro jeito, né? Já sair do meu jeitinho. Eu acho que é um álbum que tem essa carimbada, essa coisa do original. Eu acho que eu revisito muito a minha história o tempo todo quando eu tô criando coisa nova, pra lembrar do que me fez ser quem eu sou hoje em dia. Então, são escolhas conscientes, mas, ao mesmo tempo, é uma tentativa que deu certo, uma tentativa bem executada de mostrar um pouco desse meu universo caótico, que tá dentro de mim. E isso tem a ver com a minha história, tem a ver com ancestralidade, de onde eu vim também. Tudo isso dentro desse caldeirão. É uma coisa que eu faço desde o começo.

[LEOA]: Eu acho que eu me destaquei mesmo no cenário quando eu comecei com a banda, justamente porque eu fazia isso. E também como a maloqueira pode ser múltipla, né? Como a gente pode ter muitas camadas. Até brincar com a feminilidade mesmo.
Toda a sua referência estética parte do mesmo caldeirão singular que é tão característico, com seus visualizers e estilo que interseccionam referências de fora, princesas, Hello Kitty, praias, maximalismo, elementos da cultura punk e da periferia nordestina, esbanjando extravagância e muita psicodelia.
[LEOA]: Minhas referências vão de Joelma a Linkin Park, Bad Bunny à Companhia da Lapada, sabe? Tudo converge muito nessa direção, pra ter uma multiplicidade mesmo, e eu sou exatamente essa pessoa! Eu tenho tatuagem da Hello Kitty e gosto de Hello Kitty muito antes do hype atual. Eu era a adolescente roqueira, de gorro, calça folgada, mas sempre gostei de dar uma quebrada. Tipo: “acho que eu tô muito assim, vou dar só uma quebrada aqui”. Eu sempre gostei dessa coisa do fofo com o dark. Nessa estética, eu acho que eu não tô tão dark. Na época da banda, com essa coisa do bregapunk, e nesse trabalho eu queria trazer algo mais tropical, mais solar.
"Ao mesmo tempo, não tinha como fugir desses temas das princesas, porque eu gosto muito disso. E eu acho que a gente, que é mulher, é sempre colocada nesse lugar de ser a certinha, a fofinha, a bonitinha. E eu sempre gostei dessas imagens da princesa fumando, da princesa com a maquiagem borrada pra quebrar com isso, sabe? Eu também adoro usar umas coisas mais agênero em relação à roupa."
"Eu gosto muito de brincar com a imagem,
de poder ser várias — não só esteticamente,
como musicalmente também."
A ferocidade de LEOA em se compreender como indivíduo para, então, se deleitar como artista se reflete diretamente na forma como consome arte. Durante a conversa, a potiguar revela o quanto é importante estudar suas referências e se reconhecer de maneira única entre elas — um percurso que atravessa o brega, a cumbia e nomes como Peso Pluma, Natanael e, sobretudo, a artista espanhola Bad Gyal.
[LEOA]: Ela é uma artista que eu ouço bastante já há uns anos. Não para. Às vezes tem artista que você gosta mais de um trabalho do que de outro. Então, quem gosta de LEOA, acredito que vai gostar muito da Bad Gyal. Ela é da Espanha, mas tem muito essa coisa do flow jamaicano. Ela canta muito reggaeton, mas também ritmos latinos e dancehall, que eu gosto bastante.
[LEOA]: Curiosidade: eu sou muito fã desses reality de competição de culinária. Eu tenho consumido muita coisa asiática, anime. De reality de culinária eu indico muito Guerra Culinária […] são chefes muito "bafo", assim, da Coreia, galera renomada de lá. Essa coisa da alquimia, da cozinha, da bruxaria. Eu me inspiro muito nisso, por incrível que pareça. Mas assim, tenho um preferência muito grande por esses realities de arte, maquiagem. De escutar, assim, esses tempos eu me debrucei muito no brega porque eu montei um show novo, a "Seresta da Leoa".
Sobre os próximos passos, LEOA atravessa um momento de liberdade criativa que também se espalha pelos palcos. A turnê acontece em formatos mistos: ora com banda, ora com DJ, ora em apresentações mais enxutas, íntimas, que se moldam ao espaço e ao clima da noite. Cada show vira uma experiência própria, um acontecimento. Entre o revisitar de repertórios que atravessam diferentes fases da carreira com Luísa e os Alquimistas e a apresentação do universo de Original Malokera, a artista se encontra em movimento pelo Nordeste.
[LEOA]: Recentemente eu comemorei 10 anos do Cobra Coral, que é meu primeiro álbum da banda Luísa e os Alquimistas, completou 10 anos agora em janeiro. Foi lindo, a galera ficou pedindo mais. Fiz a Seresta, então eu tô nesse formato de testar com o público. [...] Fui à Recife recentemente na Bacurau, tô pra ir de novo agora numa prévia de carnaval. Quem Cola Entra, o nome da prévia. Minha amiga UANA me chamou, vai ser muito legal.
LEOA traz no palco, a relação viva com o público, e a experimentação aparece como motor central — não só para manter o espetáculo em transformação, mas para fazer da música um estado: de presença, de prazer e de verão prolongado.
[LEOA]: Eu tô realmente numa fase de testar formatos e de estar sempre entregando novidades pras pessoas. Como eu quero ir pro mesmo lugar mais de uma vez, estando em Natal, por exemplo, eu consegui fazer shows diferentes. Quem for a todos vai ver apresentações bem diferentes uma da outra. Eu gosto muito disso. Então eu tô realmente nesse momento de fazer uma turnê quase mochileira aqui pelo Nordeste até março, com novas datas surgindo. Tá muito legal fazer esse show de diversas formas. Tô nessa fase de experimentar, de me jogar mesmo.
O projeto é, claramente, um frenesi identitário que nos afoga na maresia de ser de onde é. É tão divertido conhecer quanto ouvir LEOA. Em um trabalho que esbanja pluralidade e nos entorpece ao mesmo tempo em que nos eletriza, Luísa brinca com o sexy, canta sobre amor, carinho e mágoa, e ainda grita um orgulho incessável de suas origens. Ao revisitar suas próprias faixas, a cantora reinventa a si mesma a partir de um olhar um tanto quanto saudoso dos trabalhos antigos, porém com roupagem mais madura e calorosa como um verão tropical que promete ser longo, alucinante e até mesmo íntimo.
[LEOA]: Esse disco é um disco em que eu queria aparecer com o cabelo longo, mais volumoso, mais arrumado. E a LEOA, essa nova fase da minha carreira, já é uma reconexão muito forte comigo mesma e também com de onde eu vim, com a minha ancestralidade. Eu sou filha de um casal interracial, e esse processo com o meu cabelo diz muito sobre isso. Eu alisei meu cabelo por muito tempo, depois tive dread por muito tempo também, que foi um processo muito bacana de cultivar. Mas só depois, já com trinta e poucos anos, é que eu fui realmente conhecer o meu cabelo de fato. Então esse é um disco em que eu tava vivendo esse processo de transição capilar, de certa forma: deixar crescer, tirar o dread, que aconteceu na pandemia.
Em cada faixa, ela nos lembra que não só pode, como deve se entregar às ruas que compõem seu lado pessoal, constroem seu magnetismo e atravessam o corpo da obra ao explorar, com autonomia e força, as suas raízes.
Ao fim, o futuro de LEOA se constrói com um certo fascínio pelo risco, por ser livre e original. Seus próximos passos seguem guiados pelo mesmo desejo que atravessa o álbum: o de criar a partir do corpo e do prazer de existir sem encaixes. Entre remixes, palcos mutantes e novas leituras de si, a artista reafirma que sua música carrega a dança que entorpece, um som que eletriza e uma identidade quente e irresistível.
_edited.jpg)





Comentários