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Grandes lentes, sol forte na cabeça: sonhando o documentário ambiental com Guga Betanin

  • João Matheus Marques
  • há 16 minutos
  • 20 min de leitura

Guga é do tipo que te faz ter curiosidade pelas coisas, habilidade relativamente rara no momento em que estamos; ter interesse em mergulhar fundo em projetos para segurar o impacto com as mãos, querer ver um curta sobre uma lagartixa em um quintal (Cidadão Calango, 2025) ou ouvi-lo falar sobre o processo de produção de um documentário — tudo movido pela mais sincera curiosidade. Vi seu longa de estreia, Nordeste Água e Óleo, já faz um tempo considerável, durante sua pré-estreia no Cinema da UFPE – simbólico, considerando que o projeto nasceu como um TCC dentro do curso de Cinema e Audiovisual –, e acompanhei sua estreia no Cinema São Luiz com gosto. Desde então, pouco do que escrevo sobre é suficiente.


nordeste água e óleo
O derramamento em 2019 foi a maior tragédia em extensão territorial do Brasil. Foto: Nordeste Água e Óleo

Poesia, calor e imagens de arquivo margeiam a tarefa do diretor paranaense Luiz Gustavo (Guga) Betanin em seu filme de estreia. Tarefa árdua, mas não menos similar que aquela com que nos defrontamos todos os dias: enxergar a face humana diante da tragédia. Uns olham nos olhos, outros fingem não saber. O que sobra é o que dizemos — e como dizemos — sobre a água e sobre o outro.


Diante dos derramamentos de óleo que tristemente marcaram o ano de 2019 na região Nordeste do país, diretor e equipe esmiúçam, quase cinco anos depois (à época do lançamento), os efeitos das prolongadas consequências ambientais para tecer um reconto sensível através daqueles que presenciaram o impacto de perto. A câmera ora se aproxima ou se afasta; o close é num pequeno apêndice de óleo endurecido ou no refluxo da maré; a mancha dilatada, à espreita depois de quatro anos na areia. Os veios d’água refletidos escondem uma luta em terra firme: a de praieiros, marisqueiros, biólogos, professores e pesquisadores que, entrevistados neste documentário, exibem a face humana defronte a maior tragédia ambiental em extensão territorial no Brasil. 


Converso com Guga sobre fôlego, suor, ideias e o que o move rumo à outra margem com o cinema ambiental. Converso sobre aquilo que pode ser poético, que pode devir e que não tem medo de pisar em pedras quentes sob o sol. Em seguida, transcrevo uma conversa com a equipe do documentário, sobre o processo de sonhar juntos. 


[JM] Quando e por quê você veio para Recife?


[GB] Vim de Foz do Iguaçu (PR) em julho de 2019, para estudar cinema na UFPE. Desisti de uma vaga em Engenharia Civil, numa ótima universidade do Paraná, para vir ao outro lado do país e me especializar em uma paixão que me acompanha desde a adolescência (o audiovisual), quando levava uma Gopro velha e surrada para todos os lados, nos esportes que praticava.


[JM] Decidir abordar a questão do óleo nas praias é estar diante de algo que já aconteceu. Firmar um reconto a partir da comparação entre o ontem e o hoje – com as claras consequências da tragédia ainda palpáveis – é uma decisão precisa, mas difícil. Como foi o processo de contatar as fontes e o material – que inclui imagens de arquivo e de celular – e selecioná-los?


[GB] Logo de cara, dois grandes acervos foram disponibilizados para o projeto: O do movimento ambiental Salve Maracaípe (que esteve na linha de frente do desastre em 2019 e o qual eu faço parte) e o acervo de professores da Oceanografia, Biologia e Zoologia da UFPE — reunido através do meu co-orientador (e um grande especialista no tema do derramamento), Prof. Dr. Gilvan Yogui (Oceanografia/UFPE). Só nesse momento inicial, eu já angariei mais de 200 GB de materiais históricos, entre fotos e vídeos. Com o decorrer do projeto, naturalmente novas doações de acervos começaram a acontecer — como do Ibama, ICMBio, docentes de outras universidades, ONGs, etc. Selecionar esse material todo, fazer essa curadoria minuciosa, foi, de longe, o maior trabalho do projeto inteiro. O processo de roteiro foi longo e as gravações também nos exigiram bastante, mas novamente: de longe, o maior trabalho (no sentido manual da coisa) em Nordeste Água e Óleo foi realizar a curadoria de todo o acervo histórico que se reuniu. A pasta tinha mais de 200 GB e quase 3 mil peças, entre fotos e vídeos. Eu olhei uma por uma e escolhi as que julguei mais necessárias pra progressão da história, mas eu teria colocado todas se fosse possível — acabaríamos com um doc de umas 8 horas. Quem já assistiu o filme sabe que muitas imagens de arquivo foram gravadas de forma bastante caseira, sem equipamentos caros e de forma até desesperada, pois a galera estava registrando enquanto toneladas de petróleo batiam nas praias. A discrepância de qualidade desses registros com os que fizemos, com câmeras profissionais, é grande. Ainda assim, isso nunca me incomodou, porque o valor de cada imagem registrada é imensurável. Agradeço muito quem tirou um tempo, nem que 30 segundos, para fazer uma foto ou vídeo do derramamento. O que essas pessoas fizeram, na realidade, foi documentar um capítulo tenso na história brasileira, sobretudo na história do meio ambiente brasileiro, que já estava atormentado pelo governo absolutamente antiambientalista na época. Esperamos que sirva de recordação para que não aconteça mais. Como disse, eu colocaria as 8 horas de registros se fosse praticável.


[JM] Como é a rotina no set de um documentário ambiental?


[GB] Grandes lentes, sol forte na cabeça durante o dia inteiro e uma paciência que Buda invejaria. Além disso variar muito entre pessoas, equipes e projetos, eu não tenho a palavra certa sobre esse tópico, afinal ainda estou engatinhando nesse nicho. O curso de cinema na UFPE é admirado no país inteiro, com muita razão, mas durante os cinco anos da faculdade, infelizmente não aprendemos nada sobre esse nicho tão interessante. Mas isso não se restringe ao curso de cinema da UFPE, pelo que vejo. Nesse sentido, o que tem acontecido é: Nos projetos que venho realizando, tenho tentado adaptar o que aprendi no curso para a lógica dos docs ambientais e de vida selvagem — que é uma área cheia de peculiaridades e desafios completamente diferentes. Claro, a estrutura basal ainda é a mesma (pesquisa, roteiro, pré, prod, pós, distribuição), mas há algumas marcas que se diferenciam muito. Para citar duas: projetos obrigatoriamente interdisciplinares e que exigem muito, física e mentalmente, de você. Com algumas exceções, acho quase impossível você fazer um doc ambiental/vida selvagem/divulgação científica sem ter a presença de um profissional no tema que se está documentando. O documentarista pode ser o maior devorador daquele tema, mas a precisão e validação científica vem apenas com quem é da área. Eu sempre brinco que, de tanto ler e devorar o tema do derramamento de óleo (de 2019 e outros), devo ter me tornado a pessoa do CAC e da área de humanas que mais entende sobre esse assunto no mundo. Ainda assim, seria impossível ter a precisão científica, o detalhe minucioso, se não tivéssemos a parceria forte com o Departamento de Oceanografia da UFPE. E sobre a exigência física/mental, isso não tem um pingo de exagero. Majoritariamente são diárias externas, embaixo de sol, em ambientes com algum grau de desafio físico também. Houveram casos em Nordeste Água e Óleo que andávamos no mangue, carregando equipamentos, com as pernas atoladas na lama até quase os joelhos. E sempre muito sol na cabeça! O trabalho de pré-produção tenta prever ao máximo esses desafios, mas a partir do momento que você sai de área abrigada, com sombra, confortável, tudo pode acontecer. E a paciência é posta à prova especialmente gravando animais… tenho testado muito a minha ultimamente, inclusive. Nesses casos, prepare-se para passar o dia todo gravando e sabendo que, daquela diária, talvez se aproveite apenas 1 minuto (sem exageros). Já escutei relatos da National Geographic em que ficaram 2 anos tentando gravar um tigre na Sibéria e, por fim, conseguiram: a cena durou pouco mais de 1 minuto.


[JM] Acho que é um pouco previsível minha pretensão de sondar quais são os desafios de se fazer documentário ambiental no Brasil. Sei que um diretor não pode falar por todos os outros mas, para fugir do clichê, gostaria de perguntar o que o documentário ambiental almeja? Quais são as expectativas de um documentarista ambiental ao produzir algo?


Ao meu ver, há algumas respostas pra isso. Um documentário ambiental, para mim, almeja se tornar um instrumento real na conservação da natureza. Um instrumento efetivo, que surte efeitos concretos tal qual itens materiais, como rádio-colares para monitoramento de onças-pintadas. Apesar de faltar a materialidade de um rádio-colar (um filme não é palpável), um documentário pode — e deve — receber esse nível de consideração. O porquê é simples: porque atua, verdadeiramente, efetivamente, na educação do público. Um documentário, série ou qualquer produção que comunique e sensibilize o público com questões ambientais, com a importância da restauração e conservação da natureza, se torna um grande adaptador de linguagem. É incrível isso! Se tornam máquinas (sustentáveis) de acessibilidade da informação, que muitas vezes fica restrita apenas em âmbitos técnico-acadêmicos e não chega à população. Não quero culpar nossos colegas pesquisadores e cientistas, mas consegue ver como a interdisciplinaridade está presente? E por que educação, adaptação e acessibilidade de linguagem? Por que pensar em tudo isso? Porque ninguém dá atenção plena, importância real, para aquilo que não conhece. Aquele clichê é muito verdadeiro: “conhecer para conservar”. Todo mundo já parou alguma vez na vida, nem que alguns instantes, para ficar admirando esses documentários. Eu assisto desde criança, não apenas na National Geographic, BBC e Animal Planet, mas também no Domingão Aventura (do Faustão) e no Globo Repórter. É fascinante! Acho que, antes de tudo isso, documentários de natureza buscam fascinar as pessoas. É esse fascínio, essa admiração, essa quase incredulidade de que vivemos num planeta tão impressionante, com animais tão diferentes, que desperta alguma coisa dentro das pessoas, mesmo que em pequenas ações.


[JM] Você, além de diretor, também é fotógrafo ambiental. Fico me perguntando quando foi que surgiu o desejo de registrar e emergir na natureza? Você acha que o despertar de sua consciência ambiental foi também o despertar do Guga enquanto diretor?


[GB] Agradeço o elogio, mas não me considero fotógrafo profissionalmente, apenas como hobby. Já me perguntaram de onde vem esse olhar pra natureza e tenho certeza que a resposta é minha cidade e minha família. Quem conhece Foz sabe que ela é imersa na natureza. Obviamente tem seus problemas, mas ainda preserva um dos maiores fragmentos de Mata Atlântica do país, junto com as demais cidades fronteiriças do Parque Nacional do Iguaçu (o parque das Cataratas). Sempre pratiquei esportes que estavam em contato direto com o mato lá em Foz, como mountain bike e slackline. Em Foz também temos o Refúgio Biológico Bela Vista, que faz um trabalho de reabilitação e conservação de diversas espécies, tal qual os amigos do CETRAS aqui em Recife. Além disso, muitas pessoas da minha família trabalham com meio ambiente — meu pai, com tratamento e qualidade da água, por exemplo. O despertar desse fascínio pelo meio ambiente veio muito antes até mesmo de me interessar pelo audiovisual (por motivos aparentes). Só não sei como não me tornei Biólogo ou algo assim… isso não sei dizer.


[JM] Acho que ao falar sobre documentário ambiental, tendemos a colocá-los em algumas categorias:a apocalíptica, o clássico filme-denúncia, o filme-pra-passar-durante-a-aula-de-biologia ou o “Filme Necessário”. Entre o propósito denunciador e o educativo, sinto que um entrelugar é sempre mais interessante e complexo de se observar. Por isso, o que mais me aproxima de Nordeste é justamente seu experimentalismo: na mescla de arquivos, versos declamados e efeitos imagéticos que fogem de um purismo técnico é possível sonhar. Você tinha, desde antes de colocá-lo em prática, a certeza de que produziria algo cuja linguagem foge de um espaço “comum”?


[GB] Definitivamente esse foi um dos mais belos elogios que esse filme já recebeu — o de que ele permite sonhar. Eu até salvei esse trecho! Eu tinha total clareza de que Nordeste Água e Óleo seria assim, inclusive o poeta (Peixada Guará) foi uma pessoa que entrou bem cedo na equipe e, desde lá, trocávamos ideias sobre como transpor poesia ao filme. Inicialmente, nos primeiros esboços do roteiro (em 2023), era um doc muito mais “seco”, puramente técnico. Foi através da sugestão de um amigo, Mário César, que viria a se tornar o consultor artístico do projeto, que mudei minha visão. Mário sempre me provocou com a ideia de trazer mais arte para o doc. Após muito esboçar, decidi que seria com a linha artística que criaríamos, com muito destaque e de forma muito bonita, a representação das marisqueiras e pescadores (comunidades altamente afetadas pelo derramamento lá em 2019) e também a fala da própria natureza. O poema que Peixada fez selou isso, foi o casamento perfeito. Chamei de linha descritiva todo o bloco de entrevistas, acervo histórico e informações técnicas; linha artística esse espaço poético e linha sensorial as breves cenas em preto e branco que vemos — essas, inserimos com o intuito de causar desconforto mesmo, tentando emular ao máximo a estética e os sentimentos ruins ligados ao derramamento, afinal queríamos transportar as pessoas pra lá (2019) de todas as formas possíveis.


[JM] Em comparação com outros estilos de documentário, a produção ambiental parece ligeiramente mais tímida, certamente não pela falta de consequências climáticas para se debruçar. Ao que você associa o desinteresse nesta área?


[GB] Eu vivo me perguntando sobre essa questão. Lá fora, o documentário ambiental ocupa espaço de prestígio. Plataformas e canais exibem produções grandiosas, feitas com orçamento de milhões e equipes especializadas. Aqui, e em muitos outros lugares, a presença ainda é tímida. Não por falta de biodiversidade, nem de profissionais. O que temos é ausência de espaço mesmo. Temos biomas únicos, como a Caatinga. Mas o público, em geral, não cresceu com esse tipo de obra no horário nobre. Há também os bloqueios econômicos e políticos, claro. Obras ambientais confrontam interesses de setores fortes, o que afasta financiadores e emissoras. Sem apoio consistente, essas obras ficam restritas a nichos. Felizmente não são mais tempos sombrios como os do governo passado, mas, ainda hoje, as governanças em todos os níveis — municipal, estadual e federal — ainda não dão real valor para a pauta ambiental. É sempre uma pauta pra daqui a pouco, quando o desastre já aconteceu. Aqui ainda é difícil imaginar um domingo em que todos parem para ver um filme sobre a Caatinga depois de um almoço. Não por falta de talento ou de histórias, mas porque ainda não abrimos os olhos para o que está diante de nós.


[JM] Você tem algum documentarista predileto ou que te inspira, seja na técnica ou na sensibilidade?


[GB] Sim e é brasileiro, um dos maiores documentaristas de natureza do mundo: João Paulo Krajewski. Há muitos outros nomes e uma grande lista brasileira! Além, quando pequeno gostava muito de assistir a Glória Maria, no Globo Repórter, em lugares fantásticos pelo mundo. Sempre gostei muito também dos filmes de um dos maiores documentaristas e oceanógrafos que já existiu, o Jacques Cousteau. Por fim, um dos nomes que está no topo da minha lista de inspirações é o do navegador e escritor brasileiro Amyr Klink. Estou quase completando a coleção de livros dele — todos presentes da minha namorada, inclusive.


[JM] Você está trabalhando em algum novo projeto no momento?


[GB] Em alguns projetos! Inclusive no meu primeiro documentário exclusivamente sobre vida selvagem: o Cidadão Calango. Esse filme, um curta, mostrará a vida do calango-comum, essa lagartixa-preta que vive nas cidades conosco (por isso o nome Cidadão Calango). Passamos alguns dias gravando esses animais e ficamos apaixonados… imagine só, apaixonados por calangos! Isso porque as pessoas acham que para verem animais silvestres e comportamentos selvagens elas precisam ir longe, na África ou no Pantanal. Quando, na realidade, nos quintais de nossas casas há diversas cenas curiosas acontecendo todos os dias com animais que, infelizmente, a gente acaba até demonizando: calangos, sapos, rãs, morcegos, etc. O intuito é mostrar não apenas a vida desses animais, mas também mostrar o papel ecológico que desempenham, a importância que eles têm. Queremos mostrar também como nós, humanos, somos egoístas ao achar que as cidades são apenas nossas. Tem muitos outros cidadãos não-humanos por aí!


[JM] Varda nos diz que se abríssemos pessoas encontraríamos paisagens. Acho que, em Nordeste Água e Óleo temos algo similar. É no diálogo com professores, praieiros, funcionários públicos e vendedores que as paisagens afetadas se constroem, mais próximas da voz de quem vive do que de uma visão externa. A partir do diálogo com a comunidade local, a praia se estende além da orla e torna-se um modo de vida. Como você descreveria a experiência de tentar traduzir, de certo modo, a vivência de muitos?


[LG] Foi um grande desafio e é algo que me preocupa até hoje, pois constantemente reflito se fiz jus à história dessas pessoas. Atuei em outros derramamentos, mas no de 2019 não, então tive muito cuidado e um respeito extremo ao lidar com os depoimentos e imagens de quem atuou em 2019 tentando (e conseguindo) salvar nosso litoral. Antes de ligar qualquer câmera, eu mergulhei muito nessa história. Escutei diversos relatos, li muitos livros e artigos sobre o tema, visitei muitos locais afetados. As primeiras faíscas para a produção desse doc surgiram ainda em 2021, com provocações do co-fundador do movimento Salve Maracaípe e meu amigo, Daniel Galvão. Foram alguns anos pesquisando e interagindo com esse tema. Espero, de coração, que a história tenha sido bem contada.


[JM] Sei que é difícil, mas gostaria de saber qual o caminho de um documentário ambiental desde sua idealização até sua execução.


[GB] Como disse lá atrás, a estrutura básica é a mesma que em outros nichos do cinema. Julgo muito importante a etapa de pesquisa de um doc ambiental. Pesquisa mesmo, antes de qualquer linha de roteiro. Isso porque questões ambientais nunca estão isoladas (em sentidos positivos e negativos), então quando você começa a mergulhar em um tema, rapidamente descobre diversos outros pontos ligados àquele ponto central. Quando é coisa boa, ótimo, mas quando é problema, é problema mesmo.


guga betanin
Guga Betanin, diretor do doc. Foto: @cunes_herpeto

[JM] Que conselhos você daria para um documentarista iniciante?


Para um documentarista no geral, sem ser especificamente de natureza, é preciso curiosidade acima da média, quase como um incômodo no âmago da alma por querer fazer grandes histórias (mesmo que de coisas pequenas) serem vistas pelo mundo.


[GB] Agora, para documentaristas de natureza, além da curiosidade para mergulhar fundo nos temas, é preciso o combo: determinação pra andar por todo tipo de terreno, vegetação e condição climática; paciência transcendental, pois mesmo no tempo da natureza a história acontece; e imunidade para aguentar o sol torrando (ou a chuva lavando) você durante o dia inteiro. Ainda assim, é muito legal e eu não troco por nada.


Para melhor compreender o ensejo artístico do documentário, conversamos também com alguns membros da equipe, desta vez com o enfoque no processo criativo e de produção: Guga, previamente apresentado, Arthur Santos e Fellipe Nery (diretor e assistente de fotografia, respectivamente), Enrico de Mello (diretor de som) e Mário César (consultor artístico). 


[Guga] Acho que é importante contextualizar essa questão de como que o projeto se viabilizou. Foi o seguinte: o professor Gilvan [Gilvan Yogui, professor do Dept. de Oceanografia da UFPE], desde, sei lá, desde pouco depois do derramamento, desempenhava um [papel] no caso, pesquisava as áreas afetadas. Então ele tinha um projeto de pesquisa que se encerrou agora no final de 2024, onde ele coletava amostras de solo, de areia, etc., em alguns dos pontos afetados pelo derramamento. É um projeto patrocinado, financiado, no caso, pelo CNPq, e aí dentro desse projeto havia uma verba para divulgação científica. E até então eles não sabiam exatamente como é que eles iriam utilizar isso. Provavelmente iriam utilizar da forma que eles estão acostumados, assim, fazendo algo bem básico mesmo. E aí apareceu tudo no mesmo instante. Assim, foi uma grande, grande, coincidência, muito feliz, porque eu cheguei com essa proposta, o professor falou: "A gente tá precisando disso". E aí ele conseguiu viabilizar essa verba da divulgação científica do projeto dele pra gente, que foi R$ 5.000. Assim, em termos financeiros, a gente conseguiu fazer um longa-metragem com R$ 5.000, sabe? Foi uma coisa maluca assim.


[Guga]: E eu acho que  dois fatores possibilitaram muito essa essa execução com recurso tão escasso. O primeiro fator, o maior de todos, é que a equipe é toda voluntária, todo mundo tá trabalhando de forma voluntária. Naturalmente nós temos ganhos adjacentes que vão acontecendo, né, de implementação de currículo, de ter contato com pessoas muito importantes, assim, que estão na linha de frente de muita coisa…


[Guga] E outra coisa que a gente combinou também, foi uma sugestão da produção do documentário, que a gente vai aplicar agora em vários festivais: se porventura a gente ganhar algum festival desse, o valor que a gente ganhar vai fracionar pra equipe, como também uma forma simbólica de tentar eh contribuir para todo mundo também financeiramente.


Sobre a tarefa de construção de uma linguagem fotográfica, Arthur Santos e Fellipe Nery respondem:


[Artur Santos] Foi uma direção, querendo ou não, de fotografia conjunta, né? Nós dois [Arthur e Fellipe], e foi muito isso, eu acho, de observar, sabe, cada ambiente, de prestar atenção nas coisas, nos depoimentos, porque querendo ou não, a gente poderia simplesmente filmar, mas eu acho que a gente tava muito dentro daquilo ali que tava acontecendo. Então, a gente sentia também o peso de cada um na praia que sofreu, o impacto de de que cada profissional tava depondo pra gente, sabe? […] acho que através da escuta a gente consegue também trazer a visão, são sentidos conectados.


[Artur Santos] Então eu lembro que uma das visitas a gente tirou um monte de foto e eu vi cada coisa linda. Eu disse: "Não, vou fazer aqui, vou fazer aqui". Mas quando a gente chegava dependia de muita coisa, porque tipo, teve muita chuva, por exemplo, em um dia, então [em] muito cenário, a gente não podia filmar de certo lugar porque acabava ficando com pouca exposição, então o critério era mais pensar na composição, eu acho. Pensar muito também nas linhas guias, que é um conceito da fotografia que é quando objetos da composição meio que fazem uma linha que guia a visão do espectador. A gente pensava muito em sempre incluir essas linhas naturais, que eu acho que destacava essa imensidão da natureza e acho que destacava também a natureza em geral porque eram linhas que a gente não tava fabricando artificialmente, a gente não pôde usar luz artificial, né? Então era tudo coisa da natureza, era muito destacar esses formatos da praia, das pedras, do próprio mar, tudo que fosse contribuir com essa visão.


nordeste água e óleo
A equipe do documentário na Praia do Paiva, em Cabo de Santo Agostinho.

[Fellipe Nery] Ele [Guga] tinha muito bem definido na cabeça dele que a gente teria três linhas, que é a linha expositiva, a linha de, enfim, de entrevistas, de depoimentos. A gente teria a linha artística, que é que compõe a parte do dos poemas e a parte ali do dos trabalhadores, né? E a linha, como é que chamou? Experimental… era sensorial, né?


[Guga] Sensorial.


[Fellipe Nery] Então isso tava bem definido e ajudou pra gente conseguir gravar tudo, né? A gente focava para fazer as entrevistas, mas a gente tinha que focar também numa parte, eu acho que mais que puxava do cinema artístico para fazer a parte com a marisqueira, a parte com o pescador e puxava para outro lado assim do experimental, sensorial, que a gente buscava gravando a espuma ali da da água do mar, gravando uma garrafa em ângulos diferentes, né? Então, com movimento. Teve até uma  parte com no aquário, né, que que Guga fez com com a Sara, que foi assim, foram três linhas totalmente diferentes, mas que deram esse norte pra gente construir o resultado final,


[Guga] Primeiro, a gente chegou num ponto em que a gente tava maluco já, porque além dos fatores naturais de uma produção, de ordem do dia, agenda da equipe, agenda do entrevistado, cara, a gente estava calculando a tábua de maré para entrar nos estabelecimentos. E a produção de fato foi gigantesca, porque eles diziam, tipo assim, com precisão:  7:20 a gente tem que entrar nesse mangue. 8:40 a gente tem que sair, senão a gente vai ficar preso, sabe? Então assim, uma coisa absurda, velho. E outra coisa que eu ia dizer é que, como os meninos tinham relatado, a gente não chegava só chegava e colhia o depoimento, tava todo mundo muito presente assim nas gravações. 


[Guga] Eu acho que muito também porque antes de começar as gravações, eu pedi pro professor Gilvan fazer um super aulão de petróleo, derramamento, manguezal, oceano, para todo mundo ficar na mesma página sobre os termos técnicos, sabe?


[Artur Santos] Eu não consigo imaginar o filme sendo igual sem essas explicações que a gente tinha de todos os profissionais que participaram. Porque realmente ajudou todo mundo a ficar na mesma página. Isso foi um toque que acho que nem todo diretor pensaria em fazer, mas [que] realmente trouxe a gente para uma imersão muito maior e para um entendimento muito maior da proposta do filme.


Sobre som e sentidos, Enrico e Guga respondem:


[Enrico] Quando surgiu a linha artística, ele [Guga] trouxe essa ideia muito presente que tá aí na direção de som mas também na direção de imagem, que foi a questão do contraste em vários aspectos. O contraste entre a leveza, da linha artística, que a gente queria transformar em algo interessante, que puxasse as pessoas para assistir, mas também trazer um um peso, uma gravidade, assim a ponto de ser até levemente desconfortável, que é a proposta um pouco da linha sensorial, essa ideia de ser — uma coisa que eu adorei, como a galera da trilha sonora, que eu conversei principalmente com Roberto, Roberto e Elton — um aspecto de sentir como [se fosse] uma trilha meio de terror. Tem isso em principalmente em dois momentos que marcaram essa coisa da linha assessorial e tão conectados totalmente, com a imagem também na forma como foi feito isso.


[Enrico] E aí a gente queria trazer isso: uma quebra muito forte entre o que você vê, e que que era a associação também conceitual, que foi o que Guga trouxe de você associar a coisa da praia com aquela coisa que todo mundo gosta — todo mundo pensa em praia e pensa […] um lugar que você vê como meio paradisíaco — E trazer justamente o choque que foi. Inclusive a gente vê muito isso nas imagens de arquivo, o choque que foi para as pessoas que, enfim, estavam tomando banho na praia, tavam trabalhando, vivendo aquele ambiente e foram surpreendidas com um desastre colossal.  O maior desastre em extensão que a gente teve aqui  no Brasil. Então foi uma coisa muito chocante, e a gente queria trazer isso na arte do filme também.


[Enrico] [Sobre] a escolha de instrumento, o primeiro teste que a gente teve para a trilha sonora foi eu que tinha feito. Peguei um teclado, fui experimentando, buscando esse conceito que Guga tinha tão claro, que foi a sonoridade de um órgão,  trazendo aquele som mais grave, que se você sobe um pouco, dá uma suavizada, mas principalmente usar aqueles graves assim que eram tão, tão graves, mas tão graves, que eram quase inaudíveis e [que] você mais sente do que você escuta. E essa trilha, enfim, os testes que vieram e os que eu mandei para Roberto foram essa base inicial, e é isso que eu posso realmente reconhecer como meu da trilha sonora. Todo o resto é crédito completo de Roberto, de Elton, que sinceramente fizeram um trabalho fenomenal. Eu saí e tava querendo parar no meio do filme  para levantar e dar um abraço neles.


Sobre a construção de uma identidade artística, Guga e Mário César Rodrigues respondem: 


[Guga] A própria produtora [do filme], Analice Bezerra, me perguntou quando o filme ficou pronto:: "Guga, aonde você acha que está a verdadeira potência desse filme?" […] Eu acho que a verdadeira potência está  nas imagens de arquivo. A gente tem um SSD aqui, ó, pequenininho, só que aqui dentro tem 400 GB de material de arquivo e é o acervo principalmente do Salve Maracaípe, inclusive muitas imagens totalmente inéditas que ninguém tinha visto ainda, sabe? , Basicamente foi pautado em cima disso que a gente se firmou para seguir costurando todo o filme. Por eu integrar o movimento, naturalmente eu tive um acesso a tudo isso, né, e a vários outros acervos, mas, como eu tinha falado, a própria comunidade que foi abraçando esse projeto foi também ajudando muito, inclusive com imagem de arquivo. 


[Guga] Acho que todos os professores da oceanografia doaram em alguma medida alguma coisa assim de de acervo, sabe? Seja uma foto ou um vídeo. Então, a gente foi construindo um acervo gigantesco, tanto que o filme demorou tanto também para sair por essa razão, sabe? Não é fácil você analisar, filtrar, decupar, categorizar o que que é melhor para entrar e o que não é, sabe? Então, no final entrou bastante coisa de arquivo, mas a gente ainda tem milhares de outros vídeos assim, que vocês não têm noção. 


[Guga] Na gênese do projeto, eu pensava em um documentário estritamente científico, assim, de divulgação científica, sabe? Então eu queria simplesmente trazer esse caráter utilitarista, que é muito justo, eu acho, de transformar ele numa ferramenta mesmo, porque as pessoas que precisam dessa informação, elas não tiveram acesso a essa informação lá na época do derramamento. Ou era a mídia falando qualquer coisa para elas, ou era a academia falando termo super complicado. Ninguém teve acesso a uma informação palpável […] do que que foi o derramamento, o que que aconteceu, o que não aconteceu. Então, a gente também se propôs a fazer o filme para isso, para pegar essa informação que fica presa na esfera técnica acadêmica, mastigar e entregar pra galera uma linguagem muito mais acessível.


[Guga] Mas o ponto é, a minha cabecinha não percebia que “quem quer saber de derramamento de óleo?” Assim, numa sexta-feira vai ter uma sessão lá de na no Cinema da Federal, um filme sobre derramamento de óleo. “Foda-se! Quem quer assistir isso, velho?” Agora o ponto foi justamente esse. A gente começou a pensar em formas de deixar o filme legal de se assistir, sabe? E aí Mário, acho que foi a primeira pessoa que oficialmente compôs a equipe, porque ele sentou ao meu lado e a gente escreveu muita coisa para trazer um peso mais artístico e cultural pro filme, sabe? Não deixar ele com essa frieza, essa dureza, sabe, de divulgação científica por si só.


[Guga] Então a gente começou a desenhar essas outras linhas, né, que a gente chama.  A expositiva é onde a gente entende o tema, a artística é onde a gente se conecta com quem sofreu isso e a sensorial é quando a gente sente meio que na pele o que foi o derramamento, sabe? Essa construção, sem dúvidas, foi uma das coisas que salvou o documentário de ser um produto frio, [de], ser um produto puramente científico que só quem é da área vai querer assistir, sabe? Acho que justamente trazer essas outras [coisas], esses outros campos, essas outras linhas, foi a coisa mais enriquecedora que aconteceu.


[Mário César Rodrigues] Aconteceu o derramamento e as pessoas diziam: "Ó, o peixe não tá contaminado". Mas ninguém entendia isso porque isso tava numa esfera, digamos assim, científica.  E aí trazer isso para a esfera do coração, pra esfera do afeto, é muito desafiador. […] E aí o processo da gente foi de alguma maneira entender que há uma certa dificuldade de lidar com esse tema, do derramamento do petróleo, enfim, ver como é que isso impactou, mas como é que a gente consegue trazer isso pro coração, né? E aí com essa narrativa artística, pegar um relato de cada pessoa que tava ali, assim, foi muito emocionante para mim, [poder] ver o resultado disso. Eu fui assistir o filme, eu chorei no filme, onde é que…como…quando é que você chora num documentário sobre derramamento petróleo? Assim, isso não acontece… Mas eu chorei porque eu vi as pessoas que estavam lá catando, uns relatos delas, e eu vi os animais e eu vi a história da marisqueira e aquilo ali foi lá e mexeu comigo.


Quando esse texto é escrito, Nordeste Água e Óleo está selecionado para a 10º edição do Planeta Doc e para o Visões do Mar, Festival Internacional de Documentários de Niterói. O novo projeto de Guga, Cidadão Calango, estreou no Cinema da Fundação, no dia 29 de setembro.

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