Quando o ar faltar: ficção e memória em "Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente"
- Antony Eduardo
- 22 de jan.
- 5 min de leitura
A versão britânica de Queer as Folk (1999) é amplamente reconhecida pela crítica de TV como uma das primeiras séries televisivas a focar em protagonistas gays. Uma das precursoras de uma representação LGBTQIAPN+ “sem estereótipos”, justamente por apresentar de maneira explícita temas como a vida sexual, profissional e familiar de homens gays no final da década de 90. Mesmo que esse não tenha sido o tema central das versões britânica e americana, é impossível negar que a epidemia de AIDS foi um pano de fundo significativo para a comunidade nos anos anteriores à exibição da série na televisão. No cenário da cultura pop, séries como essa e, mais recentemente, Pose (2017) invadem e extrapolam o entretenimento; se tornam material vivo de representação quando interpretadas por quem as assiste. Ao debater representatividade fora das telas, Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente parece seguir o mesmo caminho.
Ambientada no Rio de Janeiro dos anos 80, a história se passa no início da epidemia de HIV/AIDS no Brasil, quando o AZT, o único medicamento conhecido à época para tratar a AIDS, ainda não era aprovado no país. E é nesse contexto, inserido também nos “anos dourados da aviação” — período de muitas expectativas em torno das companhias aéreas —, que surge um esquema curioso: um grupo de comissários de bordo que realizam viagens internacionais com frequência organiza, veladamente, um plano para contrabandear o medicamento e salvar vidas no Brasil.

A linha narrativa da série conduz o espectador a um período pós ditadura, nos anos 80: a comunidade LGBTQIAPN+ enfrentava não só o preconceito, mas também o terrorismo informacional que acompanhava as campanhas publicitárias financiadas pelo Ministério da Saúde. Na época, essas campanhas eram direcionadas majoritariamente aos homens homossexuais e propagavam a ideia de que o vírus da AIDS era a “peste gay”, um “câncer gay”, ou a epidemia do outro. Quando, na verdade, tratava-se não só de uma questão de saúde pública, como era uma tentativa política de atrelar o sexo ao medo e preconceito — os efeitos colaterais dessas violências seguem como feridas abertas até hoje. A série teve sua pré-estreia sediada no Festival Internacional de Cinema em Berlim, o Berlinale, janela do audiovisual mundial, onde pôde ser consumida por grandes críticos, curadores e distribuidores do mundo todo. Foi dirigida pelo pernambucano e recifense Marcelo Gomes, responsável por grandes obras como Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, ao lado de Carol Minem (Todo Dia a Mesma Noite).
Na trama, também somos levados a acompanhar a história de três protagonistas. Fernando e Lea — interpretados, respectivamente, por Johnny Massaro e Bruna Linzmeyer — e Raul, um personagem tão icônico quanto a interpretação de Ícaro Silva, encarregado de nos introduzir à cena queer noturna da cidade do Rio de Janeiro. Lá, se passam alguns dos momentos mais marcantes e emocionantes da série, como a interação das personagens Francesca (Kika Sena) e Sonia (Rita Assemany), inseridas em cenários de uma realidade cruel, solitária e preconceituosa. Ao receberem o diagnóstico, pessoas que conviviam com HIV/AIDS se viram automaticamente deslocadas e excluídas de seus grupos sociais, quase sempre encontrando força e apoio dentro de grupos na própria comunidade. Já na FlyBrasil, companhia aérea fictícia da série, ao lado de Fernando e Lea, o grande destaque vai para a personagem de Yara (Eli Ferreira), cujas cenas profundas e complexas a fazem superar os reflexos de seus próprios preconceitos, integrando o esquema de contrabando em um ato de amor a sua família.
A história dos medicamentos retratada na série não é só ficcional. Mesmo descrevendo um tema denso e um momento sombrio para a história do nosso país, a série escolhe pôr em pauta a importância da resiliência da comunidade naquela época. Ações essas que, junto da interação dos comissários de bordo — quem antes mesmo da epidemia já contrabandeavam remédios para doenças como o câncer —, mudaram o curso da propagação do vírus e, consequentemente, o jeito que o governo brasileiro olhava para essa questão no Brasil. No que diz respeito aos “Anos Dourados da Aviação Brasileira”, as referências são claras. A FlyBrasil é uma representação e um espelho nostálgico da empresa Varig, uma companhia aérea conhecida até então por ser modelo nos quesitos de padrão de serviço, sofisticação e qualidade, mas declarou falência em 2006. Tudo isso denota a escolha e o acerto da produção em mesclar ficção com vivências reais e documentais, elevando a produção do mero entretenimento a um poderoso registro histórico e acentuando ainda mais a capacidade artística do roteiro no ato de reescrever narrativas, contribuir e inspirar a memória coletiva.
A produção da série investe continuamente na utilização de todos os elementos para a construção visual da narrativa durante os 5 episódios. Então, seja nas luzes coloridas enfeitando a ambientação da Boate Paradise — uma cópia fiel de qualquer clube queer relevante nas noites daquela década —, nos adereços e camarins utilizados nas interpretações musicais em cena, filtros de câmera e materiais de arquivos nas transições durante os episódios para simular o formato de imagem e vídeo oitentista, a série reconstrói mais ainda um universo particular localizado no saudosismo nacional. Além disso, a imersão no material se torna completa com o auxílio da trilha sonora, que faz muito mais que somente guiar as emoções do espectador, como no episódio Vem Chegando o Verão, referência à icônica canção Uma Noite e 1/2 da cantora Marina Lima. Demonstrando o carinho e cuidado de toda uma equipe por trás, a música na série não só narra os eventos respectivamente retratados, mas também remete à vida das pessoas na época, mais uma vez, transportando o espectador direto para aquele período ao proporcionar uma experiência afetuosa que transcende a tela.
A promessa de uma segunda temporada depende dos números e alcances da primeira. Mas acima disso, a entrega, abordagem e produção de cenas fortes proporcionam uma sequência de falas potentes, garantindo com facilidade, além das reflexões bastante atuais, um retrato completo para o seu contexto histórico e personagens. O último episódio da série, disponível no catálogo da HBO, entrega, de certa forma, um desfecho para alguns dos arcos e personagens da trama, mas também deixa margens abertas para a continuidade de novas histórias a serem contadas. Ao mesmo tempo, convida quem assiste a refletir sobre as marcas deixadas por um período de obscurantismo nacional e traz junto a celebração do afeto e resistência que persistem em seu próprio fôlego — ainda hoje quando, no aperto, as mesmas máscaras parecem não cair automaticamente.
_edited.jpg)





Comentários