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Não abandone a internet, ocupe-a!

  • P. Vituriano
  • há 15 horas
  • 9 min de leitura

O que é o Movimento Anti-Algoritmo?


A cada ano uma nova década entra na moda: vimos os anos 60 com os seus vestidos de silhueta reta e botas cano alto de vinil, os anos 80 com as ombreiras e cabelos volumosos, e agora não é diferente com o momento dos anos 2000 (e não adianta dizer que é “coisa de geração Z”; em 2013 os festivais de música eram lotados de Boho com péssimas imitações dos anos 70 fingindo que o Lollapalooza era Woodstock. Todas as gerações tiveram os seus momentos), mas será que tudo isso é mesmo só um retorno ao passado ou um ato contemporâneo? O que CDs, blogs e fones com fio nos dizem sobre a mudança e a construção da internet com o passar dos anos? A mentalidade por trás desse revival pode carregar mais do que uma simples nostalgia.


windows xp
Big techs, o anti-algoritmo e a nova internet.

Na internet há vídeos ensinando como transferir arquivos sem internet ou nuvem (muitos sequer sabiam o que é um cabo USB), como baixar torrent e até que o bluetooth passa arquivos ao invés de apenas conectar aos periféricos. Quando os celulares perderam a entrada para cartão de memória, foi um prelúdio da situação que vivemos agora: nada do que temos é nosso. Os softwares costumavam ter licenças vitalícias, baixávamos os arquivos ao invés de apenas acessá-los on-line e, agora, até as nossas memórias como fotos e vídeos pessoais estão nas mãos de terceiros, e pior do que isso, nós não só não a temos como só usufruímos, usamos e pegamos emprestado o que nós mesmos fizemos. Pagamos aluguel em uma terra que nós mesmos fundamos, sabíamos disso quando se tratava da terra em que vivemos, mas agora até o ambiente virtual foi colonizado.


Quantas vezes baixou o arquivo dos seus dados das redes sociais apenas para ter com você por precaução? Quantas vezes salvou arquivos pessoais no computador e passou para um HD externo ou afins? Quantas vezes procurou uma foto ou vídeo, descobriu que não tinha mais e a encontrou no instagram para apenas tirar print porque não tinha mais como baixar ou usou um dos aplicativos de download? Se não tem como baixar esses arquivos, se precisou procurar alternativas “ilegais” para ter de volta, então esse arquivo não é mais seu. O mesmo acontece com editores de texto on-line e tudo o que se salva automaticamente na nuvem, nós não temos o costume de baixar porque basta logar na nossa conta no dispositivo que for. Parece antiquado falar sobre isso, não é? Não é prático, leva tempo e parece paranoia, mas é isso que o Movimento Anti-Algoritmo nos faz questionar. Quando aceitamos ficar à mercê de terceiros? Não é um movimento contra a internet, mas um chamado: a internet foi construída por nós, tome-a de volta!


Nuvem é apenas o computador de outra pessoa com o seu arquivo. Somos nós pagando para a máquina de outra pessoa guardar o que é nosso. Caso o sinal da internet caia, cai com ele tudo o que nos enganamos pensando possuir. Dizemos que “abre espaço na memória do celular”, mas só porque fomos empurrados para isso; nicho não é comunidade online, é um catálogo de vendas (e escrever dessa maneira, “não é isso, é aquilo”, não é IA, a IA que treinou com dezenas de textos plagiados usando estruturas textuais que nós, seres humanos, aprendemos a usar); seus seguidores são seu público-alvo, seus clientes em potencial assim como você é um cliente em potencial de todos ao redor também. 


Ok, sabemos de tudo isso. Então parar de usar as redes sociais, assinar streamings e salvar nossos arquivos pessoais em dispositivos de armazenamento externo resolverá o problema? Não, mas nos mostra que há alternativas. Ao invés de apenas questionar o mundo em que vivemos, o Movimento Anti-Algoritmo tem como pressuposto repensar o mundo em que estamos virtualmente vivendo e qual ambiente on-line queremos construir. É possível vivermos um ambiente on-line sem as Big Tech? O mundo em que vivemos foi imposto a nós, sem consentimento, como idealizar um feito por nós mesmos? Como recuperar a capacidade de decisão em um mundo que nos diz o que gostar, o que usar e o que pensar?


Nos acostumamos com sermos “consumidores” ao invés de “internautas”, essa mudança de termo foi conceitual. Pensamos que consumidores tem poder, é só dizer o que gostamos ou não e por isso iremos comprar ou não e os “afetará” porque somos o seu “público-alvo”, valiosos, e eles não querem nos perder. Nosso follow é poder, reclamamos e eles nos entregam. Essa é ilusão que mesmo quem não acredita nisso acaba agindo desse modo! As únicas pessoas que se importam com “público-alvo” somos nós, quem produzimos, porque quem realmente manda está fazendo sem pedir permissão, sem perguntar o que o “público” pensa e nos impondo e obrigando a usar mesmo com protestos (veja a IA, por exemplo). Até decisões políticas são tratadas como demanda! Não somos mais só os consumidores e produtores, somos o produto ao mesmo tempo. Somos todos em um, os que compram e os que são vendidos sem consentimento. O que iremos “consumir” daqui a três, cinco anos já está decidido e achar que a nossa “decisão de compra/consumo” por sermos o “público-alvo” muda o mundo quando, no máximo, só nos tornamos consumidores de um algo diferente — que, em pouco tempo, se torna igual aos outros em um círculo infinito. 


O problema é que buscar alternativas de recuperarmos, menos que com limitações, a nossa capacidade de decisão parece muito ofensivo. O Movimento Anti-Algoritmo questiona o modo de produção personalizado, como precisamos adequar as nossas criações aos lugares que irão ser upados e algoritmizados, como músicas mais curtas e que iniciam imediatamente para prender a atenção do “consumidor”; textos mais curtos marcando leitura por minuto (passou de 15 minutos é como um vídeo: não irei ler/assistir); reexplicar constantemente o que foi dito porque o seu “público-alvo” não estará prestando atenção, até uma foto ou comentário pessoal nosso passa por essas adaptações inconscientemente conscientes. Desse modo, buscamos cortar essa relação internauta = consumidor. 


Como isso acontece em grande escala? Você tem uma conta pessoal, uma postagem ganha alcance “inesperado”, assim mais postagens daquele mesmo tópico virão até se tornarem um nicho. Logo, paramos de falar de temas variados, nos tornamos monotemáticos, terminamos conhecidos ou associados a algo só por gostar disso e, logo, começa se tornar um negócio. Esse negócio pode ser qualquer coisa, seus filmes favoritos, seus esmaltes, seus livros, seus filhos ou cachorros. Veja bem, não é uma crítica pessoal, é só para vermos que somos empurrados para isso pelas próprias plataformas, portanto não existe mais conta pessoal, mas sim contas profissionais em potencial. 


Ter “amigos” é bem diferente de ter “público”. “Compartilhar” podia significar mostrar um pouco de você para os outros e os outros para você, assim criando “conexões”, mas essa não é mais a lógica. Quando postamos, mesmo que em uma conta não comercial, estamos criando um público, portanto, ainda que essa não seja a nossa intenção, a plataforma nos indica com intenções próprias: criar o público-alvo de uma conta comercial (em potencial). Não se trata mais de popularidade ou de ter “amigos” — o que já era um fundamento terrível —, os “seguidores” são os seus clientes (em potencial). Eles, assim como o nosso engajamento, irão definir o valor do nosso trabalho. Por mais que esse não seja o seu intuito, por mais que sua conta seja privada e desative até as estatísticas, é como se fosse uma fase “introdutória” até começar a postar “de verdade”. Começa observando quem curtiu sua foto, aquela pessoa que quer namorar ou uma amizade que quer fazer, então começa a observar, ainda que só de canto do olho, o “alcance” diminuir quando postou sobre essa coisa x, diferente do que costuma postar. Mesmo que não se importe com isso, entra no seu campo de visão de um modo muito “natural” e isso não é sem motivo, pois o “público-alvo” já foi criado pela própria plataforma assim que entrou nela, logo quem começou a te seguir não foi para ver algo diferente do “proposto”, ainda que você próprio não esteja propondo nada, o algoritmo irá te guiar para isso. Há dez anos, quando você clicava em “comercial” para tornar a sua conta em uma, a interface mudava muito, parecia uma rede completamente diferente, mas agora não muda quase nada. Começou gradualmente, primeiro facilitando o uso para pequenas lojas e prestadores de serviço até se tornar o padrão geral. Não estamos reinventar a roda, só entendendo como gira. 


A interface rígida, a falta de moderação necessária para insultos, preconceitos, crimes e golpes, as atualizações desnecessárias sem aviso e, principalmente, contra a vontade dos internautas e até não poder customizar de fato o aplicativo inteiro passa essa sensação constante: usufruímos desse lugar, mas ele não é nosso. Podemos controlar o “conteúdo”, mas não a interface. Devido a essas restrições, o modo de explorar a criatividade é depositada inteiramente nas fotos e vídeos, entretanto, todas elas tem um propósito e função intrínseco do formato plataforma. Por que postar no feed é diferente dos stories, por exemplo? Por que, por mais “original” e “autêntico” seja o seu “conteúdo”, segue um padrão de storytelling algorítmico? Por que a estrutura de um vídeo para o YouTube é diferente da estrutura do TikTok? Você pode tentar o “conteúdo” novo e impressionante que quiser, ainda está dentro de um lugar que não é seu. 


Por isso, muitos apoiadores do movimento começaram a incentivar a criação de blogs. A interface de um blog é inteiramente criação do dono, uma manifestação da criatividade e habilidade em si de quem criou. Postar vídeos e fotos em um blog, só por ser em um lugar sem algoritmo e sem uma estrutura pré-moldada, já muda o modo como essa postagem será criada. O objetivo principal de um blog é não usar algoritmo para uma postagem se despersonalizar do criador ou impulsionar uma persona profissional dessa mesma pessoa, desse modo, questionando a nossa relação com a internet e com as pessoas ao redor dela. O algoritmo não cria um ambiente com início, meio e fim, tem início e meio, um novo início e um novo meio, sem fim. Criar um modo de uso consciente de internet tem um ritmo diferente, um momento final. Críticos disso dizem que é só usar a internet pelo computador ao invés do celular (inclusive, muitos blogs dos adeptos do movimento não tem adaptação para celular de propósito, para se incentivarem a não fazer postagens em tempo real e tampouco pensarem que tem como “acompanhar” a sua vida desse modo), mas eu acho essa mudança mostra exatamente que não odiamos a internet, queremos nos conectar aos outros, apenas não do modo como está nos sendo mostrado como única alternativa, principalmente uma que parece não ter como fugir ou evitá-la.

 

Há vários sites de hospedagem para websites/blogs totalmente de graça, alguns não só hospedam o site como permitem upar imagens, áudios e textos sem a necessidade de sites terceiros (como o Google Drive e o Youtube), podemos citar o Neocities, SpaceHey, Readymag, Nekoweb, Straw.Page, mmm.page, HOTGLUE e, surpreendentemente, até o blogspot voltou a ser usado (apesar dos atuantes do movimento evitarem plataformas Google e outras como a israelense Wix, tanto por uso de dados para treinamento de IA e apoio ao genocídio palestino quanto para evitar o oligopólio das Big Techs).


Na prática da atuação, caímos nas mesmas discussões da época em que o vegetarianismo e veganismo estavam em alta: uma escolha individual não muda uma indústria em larga escala. Isso é verdade, mas ao invés de nos enganarmos achando que micro atitudes por si só mudam sistemas, é melhor encarar como algo que anda lado a lado com as lutas sociais anti-sistema. Como uma subcultura, em uma situação como a nossa, é importante para enxergamos que o que nos vendem e impõe não é tudo o que temos. Uma subcultura se tornar um movimento mostra o quão insatisfeitos todos nós estamos, e isso não é pouco.


Mas isso tudo é inútil, assim que “funciona”, e se não gostou, “sai da internet”. Ok! Por que não pensamos sobre quem são as pessoas saindo da internet? De acordo com a Anistia Internacional do Reino Unido, 20% das mulheres que sofrem misoginia nas redes sociais não voltam a usá-las. No último ano, 66% das mulheres estão optando por um tempo sem redes sociais e dessas 48% não retornam. Infelizmente, não achei dados de mulheres racializadas, LGBTQIA+ e alinhadas politicamente à esquerda, mas deveria. Quando uma mulher diz que abandonou as redes sociais, normalmente homens respondem que eles também passam por isso, mas aguentam. Não passam. Segundo a SaferNet, só no Brasil em 2025 as denúncias de misoginia cresceram 224%. As Big Techs lucram com golpes, desinformação e violência virtual. 


A internet não foi “sempre” um ambiente de violência virtual, isso é tática política e um revisionismo da própria história da internet desde a sua fundação. Quem mantém essas redes não é o Vale do Silício. É importante não relevarmos a busca por novos modos de organização social virtual e de nos relacionar e usar a internet, não relevarmos novas filosofias. Assim nasceu Sci-Hub, por exemplo, e prenderam injustamente tantas figuras que reivindicaram e reivindicam o direito a informação, ao conhecimento e a um uso de internet livre. Portanto, usar MP4 ao invés de Spotify (quantas músicas não são retiradas ou sequer adicionadas ao Spotify todo ano, com a possibilidade de desaparecer? Também porque o Spotify financia inteligência artificial de drones e tecnologia usada no genocídio palestino e no mundo, inclusive na América Latina), criar do zero blogs sem algoritmo e timeline, voltar a frequentar bibliotecas, sebos e não só para comprar livros, mas descobrir quais não estão chegando em nós via algoritmo, o que já foi lançado, já existiu ou já foi traduzido e esquecido, o que está fora do nosso campo de visão é buscar a vida e autonomia de volta. Uma relação com a internet divergente do que vivemos é possível, quer queiram embarcar nisso ou não. Sentir culpa ou se sentir pessoalmente ofendido com isso, honestamente, é um sintoma do quão doentes e obcecados nós mesmos nós estamos. Não esqueçamos Aaron Swartz, aprendamos com Alexandra Elbakyan e vamos lembrar, todos os dias, a quem pertence a internet de verdade. 


1 comentário


beatriz.liebest
há 14 horas

que texto incrível. traduziu muito do que eu sinto! como artista e escritora já ouvi de muita gente como eu deveria usar as redes, como deveria mostrar meu trabalho (e isso sempre envolve me expor) e eu cheguei a gravar um vídeo agora (porque genuinamente me deu vontade e vou colocar ele na minha newsletter, provavelmente) e nele eu falo sobre como eu não gosto das fórmulas "do que funciona", não gosto da relação imposta sobre como algo tem que acontecer pra dar certo e que dá pra tentar algo não convencional. e poxa, por que não? por que funciona assim? só porque alguém decidiu e vários outros alguéns aceitaram? eu mesma não aceito, não consigo me adaptar a essa…

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