Os mofos: 30 anos sem Caio Fernando Abreu
- Lívia Coelho
- há 2 dias
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“Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada.
Não há nada a ser esperado. Nem desesperado.”
Com essas palavras, Caio Fernando Abreu definia não somente a sua escrita, mas quem era. O escritor não estava adepto a títulos ou definições de si, dessas que estão prontas e constantemente procuradas. Sua força motriz sempre fora pelo que há e não é explorado, pelo que é ignorado e estupefatamente escondido aos olhos cheios de artérias que o leem, seja a brevidade da vida ou a visceralidade que a compõe. O "mofo" o interessava mais que o perfeito, o belo. Não é à toa que uma grande influência sua foi Clarice Lispector, a escritora que fazia questão de escrever: "suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... ou toca, ou não toca".

Foi jornalista, escritor e dramaturgo. Quanto às informações biográficas, é quase impossível citá-lo sem falar de seus amigos, já que toda a sua produção muito perpassou por experiências próprias, reflexões e até mesmo cartas diretamente enviadas a eles. Próximo de grandes escritores, um deles era Hilda Hilst, com o renome dos livros e das peças de teatro. Uma das produções teatrais de Hilda, As Aves da Noite, traz no enredo a morte e o desespero dos últimos momentos de pessoas no campo de concentração de Auschwitz; o desespero é também um dos principais temas explorados por Caio — e um termo que o próprio cita inúmeras vezes em diversos textos, como a Carta ao Zézim e o conto Natureza Viva. Em 2024, a relação entre os escritores foi transformada em peça de teatro pela Companhia Colateral, um grupo cênico paulista. O espetáculo teve como pano de fundo o período em que Caio Fernando Abreu ficou exilado na Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, antes de fugir para a Europa. A escrita fora dos padrões moralizados por uma sociedade hétero e excludente fizeram de sua literatura homoerótica uma afronta, a ponto de Caio ter de se exilar, momento em que foi acolhido pela amiga.
Outro texto famoso do autor foi sobre Cazuza. O escrito foi publicado na revista Around em 1985 e contava com descrições, elogios e uma breve história do cantor carioca, falecido precocemente em 1980. Falando dele, Caio diz que é “difícil juntar as coisas nessa estranha síntese de Janis Joplin e Dalva de Oliveira: um garotão agitado, bonito, sexualidade gauche, berrados poemas de sabor beat, loucamente temperados por pitadas de Lupicínio Rodrigues, Mick Jagger, Rimbaud, Jim Morrison e muito mais”. Pensando nele, se pergunta: como é que pode? Os adjetivos que usa para descrever Cazuza também poderiam ser usados para Caio — cândido, gentil, abandidado; muito mais que isso, os amigos compartilhavam de uma sensibilidade artística única, um carinho corajoso em meio às mudanças que assolavam o país na época. Poetas de uma geração tão livre quanto dolorida, os dois C´s dividiram também as experiências de viver com HIV, muito estigmatizado na época. Quase 6 anos depois, Caio partira pelo mesmo motivo que ele.
Em 1993, Caio F. também dedicou palavras à Rita Lee, sobre como sua obra e a própria artista chegou até ele: “voltando ressabiado, reticente e escaldado, dei de cara com Ela — de quem Caetano uma vez disse, e tudo que ele diz eu fico atento, ser a nossa mais perfeita tradução. Bracejando no mar de adrenalina da Paulista, comprei o disco de Rita Lee”. Nesse momento, ele continua: “meu velho sangue roqueiro de dinossauro pop tornou a ferver. A velha senhora indigna, dessa geração que descobriu um poço de desejos debaixo do travesseiro no Reino das Águas Claras, continua com seu humor diabolicamente inteligente. Wow!”. Rita, ícone da contracultura e da disrupção, foi também um marco na história de Caio Fernando Abreu, tendo várias de suas músicas citadas em livros do autor. O estilo performático e o perfil de uma mulher “audaciosa, perniciosa, tinhosa e horrorosa como a Drag Queen de Antônio Bivar" o cativou a ponto de dizer que não vivia sem Sampa nem sem Rita.
Muitas cartas direcionadas aos amigos do escritor foram publicadas em livros e coletâneas. Suas escritas pessoais, analíticas e sensíveis são uma forte demonstração de como a literatura lhe trafegava não somente como um trabalho, mas como a sua própria vida.
“Dá vontade de escrever carta, dizendo coisas que as pessoas não dizem mais, porque seriam coisas que só se dizem por carta, não por telefone e ninguém escreve mais cartas, só telefona e portanto há coisas que não são mais ditas entre as pessoas."
Em 1966, com apenas dezoito anos, escreveu seu primeiro conto, intitulado O Príncipe Sapo, publicado na Revista Cláudia. Seu texto pioneiro compõe temáticas muito características do autor, como o desejo e as angústias. Ao longo da narrativa, acompanhamos a história de Teresa, uma mulher no auge dos seus quase quarenta anos, que diante da época e da família é julgada por não estar comprometida e não ter ainda se casado. Ela sonha em encontrar o "príncipe sapo", aquele de que ouvira falar em histórias infantis. Até que o encontra em um professor de piano, mas descobre que não pode se casar com ele devido a algo implícito:
“Eu não posso, Teresa. Não posso casar com você. Nem com ninguém. E foi explicando aos trancos, a voz ainda mais baixa, mais cansada. - Foi no quartel, há muitos anos. Uma granada, você sabe, explosão, um acidente, estilhaços. Não sou homem inteiro. Só meio homem, entende, Teresa? Não me obrigue a falar nisso!”
Teresa vê-se imersa em uma teia de acontecimentos e no peso do próprio anseio não vivido. A protagonista então passa por um tema reverberante na escrita de Caio Fernando Abreu: o desencanto, a desilusão.
“Ah, outra vez essa vontade de gritar um grito alto e triste que dobre lá longe, junto com a folha colorida em chamas, na mesma esquina onde dobrou para sempre Francisco Chico príncipe Sapo última esperança.”
Caio é apresentado aos leitores, desde jovem, como um autor que fala de coisas bastante introspectivas, referentes às pessoas, ao meio em que convivem e ao contexto de que fazem parte, firmando-se como um dos maiores nomes da literatura brasileira e tendo conquistado prêmios de grande amplitude nacional, como o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, que venceu por 3 vezes. Entre suas obras mais famosas e singulares está Morangos Mofados, uma coletânea de 18 contos que retrata a angústia, a solidão e o desencanto da geração brasileira pós-1964, marcada pela ditadura militar e pela busca de identidade. A narrativa, dividida em 3 partes, aborda temas como repressão sexual, isolamento, amor e o fim de ideais utópicos, utilizando uma linguagem poética e fragmentada.

A inicial apresenta-se sob a titulação de "Mofo". Biologicamente, o mofo se espalha e contamina tudo — da mesma maneira, o que há de podre no indivíduo também. O sujeito presente nos contos dessa parte da obra está sendo sucessivamente reprimido pelo contexto em que se encontra. Há um desencanto, uma desesperança, seja em relação a aspectos de si ou num nível social, em relação ao fim da ditadura e ao início da redemocratização. Afinal, por mais que o golpe militar tivesse sido encerrado, ainda havia um receio constante de que o processo posterior a ele não funcionasse ou que mudasse pouca coisa. Essa ideia tornou a juventude desesperançosa, um grupo cada vez maior de desencantados com o novo período que estava se instaurando no Brasil.
Ao leitor é apresentado, já no primeiro conto, um diálogo entre dois personagens não revelados e mencionados apenas como "A" e "B". O debate entre ambos é o ponto central que define o texto e foca na interação a partir de um termo citado diversas vezes: "companheiro".
Caio tem como marca característica a chamada plurissignificação — que é a possibilidade de um mesmo texto assumir múltiplos significados. Nesse conto em específico, a palavra chave não é apenas uma, afinal, tanto pode significar a simples titulação relativa a um casal quanto um termo político. Nenhum dos dois personagens expressa de forma explícita o que ser "companheiro" simboliza, mas continuam a conversar. A dúvida ressoa a quem lê: será que eles poderiam e não queriam explicar ou não podiam, frente ao regime repressivo da época?
Independente da interpretação, um fato é evidente, há ali algo escondido, tal como faz o mofo com seus micélios abaixo da superfície.
Há uma dubiedade que acompanha aquele que lê, e traz potencialmente uma epifania, conforme associa a algo que lhe faz sentido ou um senso de curiosidade sobre o que não é completamente conhecido, compreendido. Os textos do autor evocam essas sensações e tocam intrinsecamente em cada um que se faz disposto a tentar analisá-lo, ou mesmo não tentar. Afinal, é preciso estar distraído, como disse Caio, para que a resposta — se é que existe — chegue e faça morada.
A segunda parte do livro é Os Morangos. Enquanto o mofo guarda o podre, o ruim que se esconde, os morangos são frutas adocicadas mesmo cítricas, comestíveis e, dentro do contexto literário, relacionados aos prazeres. Naquela época, fora do Brasil, os movimentos sociais de libertação e as revoluções culturais ferviam em um grande caldeirão; dentro, frente à ditadura militar, a repressão da liberdade, do prazer e da vida que não atendia aos ditos de uma sociedade conservadora. Nesse momento do livro, o indivíduo dos contos procura uma saída, um caminho além da repressão, fora do mofo.
Transformações inaugura a parte doce desde o título: a busca pela mudança, pela transgressão em meio ao desencanto e ao desencontro que massacrou a geração. Nesse texto, há uma narração em terceira pessoa que explicita os fluxos de pensamentos do personagem, que sente-se desolado, desesperado e aflito com o que chama de "a grande falta". Quanto a esse termo, não há uma definição exata do que significa, não há certezas, mas possibilidades de significação. O protagonista procura algo que preencha o seu vazio, o complemento de si, de seu isolamento. "Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria".
Em meio às incertezas, ele se encontra perdido, invisibilizado de si, sem uma definição evidente de sua identidade, quase como apenas um reflexo, ou nem isso. Ao longo do escrito, ele finalmente é visto por "Outra Pessoa", que não o enxerga como um reflexo qualquer ou como um vazio identitário, mas como alguém. É nesse momento que ele torna a reerguer-se em seu existir, não mais ausente de si, mas existente aos olhos alheios e aos próprios.
"A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves. Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real."
Na terceira parte, o leitor é apresentado a um único conto e de mesmo nome que o do título do livro: Morangos Mofados.
"No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo - e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas é o final-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta."
O protagonista deste texto, após ter ingerido a fruta mofada, passa mal, vomita, vai ao médico, lembra de Strawberry Fields dos Beatles várias vezes e vê-se na angústia que o mofo lhe ocasionou ao ter aqueles morangos nessas condições dentro de si. E mesmo diante de todo o seu desespero, no fim, debruçado sobre o que lhe ocorreu, considera a possibilidade de plantar morangos.
Metaforicamente e em meio à plurissignificação literária de Caio, a história traduz um sentimento característico da época e que se sustentou sobre o autor enquanto membro desse período, que seria novamente o "desencanto" e a pequena chama de esperança em meio ao caos. Plantar morangos, não mais mofados, mas sim vívidos por esse instante. Esses que poderiam se desenvolver bem e gerar bons frutos ou ser uma vasta lembrança dos esporos fúngicos que se espalham e contaminam tudo a sua volta. Delicado e brutal, Caio repercute o pensamento e o receio que definiu sua geração após a ditadura militar.
Trinta anos depois de partir, ainda mergulhamos nas multiplicidades significativas de seus textos; vemos, nas entrelinhas das angústias e dos medos que teceram os indivíduos — e Caio — naquele momento, a sombra de um país. Quando faleceu, Caio Fernando Abreu deixou os vastos contos, as cartas aos amigos e obras de tamanha relevância à literatura brasileira. Como as raízes das frutas doces e cítricas, sua escrita nunca se ateve somente à forma, mas ao que há por trás dela, ao que dizem as palavras, ao que se sente e, sobretudo, ao que se faz ou não diante disso. Caio deixou nas mãos dos leitores os morangos mofados e as sementes de novos frutos, para que fossem propagados como tivessem de ser, para intoxicar ou mudar tudo outra vez.
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