É preciso imaginar Marty Supreme infeliz
- Juliana Andrade
- há 1 dia
- 7 min de leitura
Imagine Sísifo de monocelhas grossas, magricela, com a cara cheia de espinhas e um óculos de grau na ponta do nariz pontiagudo. Pense nele menos como um rei forte e mais como um farsante cheio de prepotência e arrogância, enganando a Deus e ao mundo todos os dias. Esse Sísifo descobre um dia que é bom em uma coisa além de mentir, faz sua vida inteira caber na palma da mão enquanto segura uma bola de pingue-pongue laranja entre os dedos — até que fracassa. E fracassa mais uma vez, e outra vez, e outra vez. É preciso imaginá-lo feliz.
Quando Forever Young, do Alphaville, é abruptamente reduzida para dar espaço à cacofonia de vozes na loja apertada de sapatos, Marty está retorcido no próprio corpo diante de uma mulher. Devidamente engravatado em seu emprego de vendedor, ele tenta convencê-la a comprar uma marca mais cara enquanto encaixa o pé dela em um sapato apertado. A experiência de Marty Supreme (2025), como um calo recém-nascido ou uma pedra presa dentro da meia, pulsa e incomoda até o momento da pele finalmente se rasgar.
Inspirando-se livremente na trajetória real do atleta Marty Reisman — o hustler nova-iorquino que apostava dinheiro em salões cobertos de fumaça antes de virar campeão consagrado de tênis de mesa —, Josh Safdie constrói um vislumbre célere do que uma biografia esportiva pode ser para além do que parece. Sua direção, na primeira vez sem a parceria do irmão, Ben Safdie (que estreou com um título bem menos promissor nessa temporada), fabrica um mito americano com os recortes de todos os trabalhos que traçaram sua identidade até aqui. Como todo bom mito, é inalcançável. Reisman foi um homem real de uma era em que talento e malandragem dividiram lugar na mesma mesa e serve como matéria-prima, distorcido nas feições de Timothée Chalamet, até que Marty, o personagem, deixe de ser apenas um atleta promissor para se encarnar como sintoma de algo maior.

Camus talvez discordasse da estética, mas certamente reconheceria o esforço. Enquanto carrega o peso do mundo na raquete, Marty se vê como um campeão nato, subindo com sua pedra em direção a recompensa garantida de quem foge do destino para chegar ao topo. Como todo bom filho do século XX americano, ele quer viver o sonho, acredita que o fim triunfal da linha existe e que, uma vez alcançado, virá acompanhado de bandeiras estreladas tremulando no vento e uma trilha sonora patriótica ao fundo.
Mais do que bom jogador, é preciso imaginá-lo como um retrato fidedigno de uma supremacia em ruínas.
A Nova York que o cerca é colateral do pós Segunda Guerra Mundial: um país que venceu o mundo e agora precisa vencer a si mesmo. Prosperidade econômica, paranoia nuclear, propaganda patriótica em todos os lugares e uma masculinidade de afirmação que tenta se reorganizar após os traumas de batalha às margens do fronte. Com ataduras e buracos de bala ainda cicatrizando, os soldados retornam para casa e precisam cumprir a cota de marido exemplar; o menino que não foi à guerra precisa provar que é digno de outra forma. Marty Mauser se posiciona, como um gato vira-lata, nas trincheiras.
Acompanhamos sua queda livre com a câmera quase sempre colada ao seu rosto suado e acneico. Diz que não enxerga a bolinha de pingue-pongue branca quando está em movimento finito entre o rebater das raquetes; vemos ele se deslocar pelos salões de jogo clandestinos, cobertos de fumaça e luz amarelada, com a mesma rapidez. Jovens brancos encostados em mesas gastas, dinheiro trocando de mão em mão, uma plateia semi clandestina que vibra pela possibilidade de ver alguém ser humilhado em público. Marty surge do outro lado da rede como uma lenda autoproclamada — magro demais, falante demais, confiante demais. A performance antecede o jogo; ímpeto transcendendo a consciência.
O filme de Safdie toma uma biografia bem mais agradável e a estiliza como parábola. Reisman, conhecido por sua malandragem e longevidade improvável, aqui vira encarnação do self-made man neurótico, que, no próprio delírio de grandeza, se entalha em um herói torto diante do ressentimento da própria vida. Faz Marty pensar, por um segundo, que ir ao Egito significa ser herdeiro das pirâmides, quando tudo o que pode oferecer delas é uma lasca de pedra à mãe. A ética do self-made man, enquanto racionalização moral do sucesso, torna-se um imperativo ontológico: se prosperar é uma virtude, então fracassar é uma falha de caráter. Não há neutralidade nesse jogo.

Josh imprime ao filme a mesma marca de urgência que vimos aperfeiçoar ao lado do irmão. Em Good Time e Uncut Gems (dois filmes que eu, particularmente, não tenho muito elogios a oferecer), homens irrefreáveis com um destino próximo ruim são perseguidos por uma câmera tão apressada quanto os planos de fuga que fazem. Close-ups abruptos, diálogos atropelados, trilhas pulsantes que às vezes quase soam pretensiosas. A expectativa de um colapso à porta, prestes a explodir, monta e desmonta esse estilo de fazer filme que caracterizou os irmãos Safdie como referência no cinema A24-esque. Seja Robert Pattinson, Adam Sandler ou Timothée Chalamet, os grandes astros que interpretaram seus longas dão vida à homens patéticos, presos numa eterna busca pelo outro lado da moeda.
Mais do que pano de fundo histórico, o pós-guerra de Marty Supreme demarca a atmosfera moral com ar rarefeito. Nos jornais da época, campeões são celebrados como símbolos nacionais, já que os EUA precisam de outros heróis para condecorar. As bandeiras aparecem erguidas ao alto, no capô dos carros, em miniaturas nas mãos — um símbolo insistente, enraizado, na tentativa de reacender a América. Prostado em seu velho discurso de orgulho, o país que venceu a guerra agora molda ícones sanitizados, disciplinados, familiares. Sabemos, desde a sequência na loja de sapatos, que nosso protagonista jamais poderá ser nada disso.
Pense em como seria fazer um retrato falado para alguém que diz conhecer um homem vitorioso. Você desenha de forma grandiosa, pensa nos traços fortes e acentuados de alguém que segura prêmios e vale um milhão de dólares. Alguém destemido, imparável, corajoso e exemplar. Olha para o papel por dois segundos e percebe, com um suspiro confuso, que seu lápis deu à vida um fracassado. Não deve ser muito diferente do que as pessoas ao redor de Marty vivenciam todos os dias.
A masculinidade que rege Marty Supreme é propositalmente performática, até porque seu anti-herói é, de nascença, caricatural. De uma forma assustadora, pode soar familiar. Tipo, ah, até que eu conheço um cara assim… esse cara que não aceita a possibilidade de ser alguém comum, que faz o mundo todo ser um adversário. Na disputa entre EUA e Japão, menos histórica e mais diegética quando vemos Marty encarar Kendo — o melhor jogador de tênis de mesa mundial — pela primeira vez. É também a primeira vez que o vemos perder. Até esse momento, você quer acreditar que o delírio dele pode ser real, porque, poxa, não é possível que esse homem seja tão inútil assim, né?
Ele se orgulha de fingir que a própria mãe morreu, abandona a melhor amiga de infância (quem ele engravidou) à própria sorte, rouba pessoas em uma odisseia com seu melhor amigo e deixa rastros na vida de todos que cruzam seu caminho. Deve valer de alguma coisa. Tem que valer. Você, no fundo, pode esperar por uma redenção — que nunca vem.
Se, como propôs Laura Mulvey, o cinema clássico organiza seu prazer em torno de um olhar que domina e estrutura o mundo, vemos a fragmentação desse olhar em um milhão de pequenas falhas. Marty, mesmo no centro da imagem, não a controla, porque não é vencedor nem mesmo no próprio protagonismo. O constrangimento de se escalar como mito cria um sujeito oleoso, trêmulo, que não é reflexo para ninguém.
Jogar contra Endo marca o ápice formal do filme: a mesa filmada como arena de duelo, a câmera tremeluzindo entre o fôlego curto de Marty e o rosto impassível de seu rival. O som da bolinha ricocheteia, seco e repetitivo, e vira metrônomo da obsessão unilateral que se tece entre eles. No meio de Wembley, o Japão reconstruído encontra a América inflada. Método contra blefe; repetição e provocação. Os microgestos dispostos no maxilar travado e no olhar que respinga incredulidade. Está ali o verdadeiro conflito desse protótipo de atleta que não pode fracassar, frente a frente com a fúria da insuficiência pessoal.
Esse homem que faz a si mesmo é apenas outra conjectura de uma crise nacional. Susan Faludi já apontava como os momentos de tensão e ruptura numa nação são capazes de fantasiar a virilidade para reorganizar os escombros. Marty é o sonho dentro da fantasia, dobrando a aposta até vencer, dominar, ser supremo. Não muito diferente do que os fóruns online perpetuam hoje, cheios de homens ressentidos com a possibilidade — muito real — de serem apenas medianos.
Talvez por isso que assistimos sua derrota e vemos algo de contemporâneo ali. No ecossistema digital em que um coach de sucesso é glamourizado e os gurus de autossuficiência sonham com um lugar no Olimpo, a pior afronta moral, mais ainda do que ser um completo babaca, é falhar. Nosso projeto de Sísifo antecipa um ethos de sabotagem; não triunfa porque não é compreendido, todos o subestimam, mas ele se engrandecerá diante de tudo isso. Morra bem, viva rápido, afinal, não há tempo (nem espaço) para estar de luto pela vida que sonha em ter, e porque tanto busca, jamais alcançará.
Se Camus cogita um Sísifo feliz, Safdie nos convida ao invés: por quanto tempo Marty pode rolar essa pedra montanha acima até que seja esmagado por ela, numa poça de arrependimentos e vitórias com prazo de validade tão pequenas quanto um espermatozoide? Tal qual fecundar uma tragédia anunciada, como encarar seu filho e pensar em todas as vezes que você fracassou. Esse recém-nascido do outro lado do vidro da incubadora, que te olha com a estranheza de quem não sabe o que é um pai, finalmente trará redenção? O mundo reconhecerá sua grandeza? O filme, como Marty, desvela aos poucos que a caminhada foi apenas metade da subida. Depois de certa altura, um gesto vazio se repetirá infinitas vezes. Esse homem que se fez sozinho também se destruirá pelas próprias mãos. Needle drop cafona, mas inofensiva: seja bem-vindo a sua vida.
Da janela, uma caixa cheia de bolinhas laranjas cai e vemos aquele quase sonho deslizar pela calçada. A esse ponto, você ri. Timothée Chalamet leva seu Marty à exaustão, ainda de monocelhas franzidas com a convicção que só um homem perigosamente seguro de si é capaz de ter. Penso que essa pode, sim, ser a tentativa que trará a estatueta para casa — talvez depois dessa ele deixe a bola cair sem culpa.
À sombra de Yukio Mishima, Marty performa algo próximo do seppuku que fez por derradeiro o escritor japonês, após um frustrado coup d'état no Japão de 1970. Sem a ritualidade dos samurais, esse último ato o rende ao chão, e a incredulidade, dessa vez, antecipa um ponto final. Entre os fantasmas da Segunda Guerra e os fósforos acendidos nas neo cavernas dos redpills, são esses os homens tentando encontrar um vislumbre de validação enquanto beijam porcos. E todo mundo ri.
Marty torna à casa como um bom filho. Do outro lado da mesa, a bola de pingue-pongue continua quicando, insistentemente, triunfalmente. Match point. É um eco distante: quando se ouve também já se dissipou.
_edited.jpg)



Comentários